Discordando na terra do consenso

Um dia leremos numas dessas listas escritas para turistas que pretendem visitar o Brasil: "as pessoas vão lhe olhar esquisito - e lhe chamar de nomes estranhos - se você não defender a transferência de (ainda) mais poder para o Estado".

A defesa de um Estado pequeno, com limites sobre o seu poder de intervir na vida econômica e privada dos cidadãos, vira tabu quando você atravessa as nossas fronteiras e entra no país. Em outros lugares ela é apenas parte do jogo. É uma posição política normal, debatida, exaltada e criticada como qualquer outra. Aqui a sua própria existência, mesmo que sem representatividade na política partidária, é controversa. É "fascismo" (cuidado, pdf). É "fundamentalismo".

A associação da defesa do mercado à adoração a uma divindade, por exemplo, é popular, e figura até no livro Masters of the Universe: Hayek, Friedman, and the Birth of Neoliberal Politics, de Daniel Stedman Jones, que é sem dúvidas é fruto de uma pesquisa séria, independentemente das conclusões do autor.

Mas para os críticos saber exatamente o que defendemos não é prioridade. Basta juntar alguns rótulos, fazer algumas associações bizarras, e está pronta uma reportagem sobre a "nova direita".

Parece que estamos sempre defendendo o indefensável. O título do excelente livro de Walter Block se encaixa bem à tarefa de ser liberal no Brasil na primeira década do século XXI: uma batalha diária para lembrar que ao país que a liberdade é importante.

Nossos parceiros na dança do debate político não conhecem os nossos passos. Eles pouco sabem sobre as nossas ideias, não entendem o que falamos, e às vezes parecem não estar muito interessados.

No fim do ano passado, a revista Brasileiros publicou uma reportagem símbolo da desinformação daqueles que pretendem informar. Infelizmente, a revista não está sozinha. Uma passada por alguns daqueles sites com banners de bancos estatais dá uma boa perspectiva sobre quadro geral. Não há debate, apenas acusações vazias.

E isso é ruim para o debate e é ruim para quem pretende ver no país um diálogo baseado em ideias: é mais fácil sugerir que existe uma semelhança suspeita entre a aparência do ditador Costa e Silva e de Ludwig von Mises Murray Rothbard Ludwig von Mises (!!!), do que discutir a sua obra.

Eu prefiro presumir que aqueles que criticam as iniciativas liberais com associações que não correspondem aos fatos estão apenas desinformados. Que não agem de má-fé.

Parte do nosso trabalho é espalhar informação, nos recolocar no debate, para que no futuro possamos ser aplaudidos ou criticados por aquilo que efetivamente defendemos.

No fim das contas, essa confusão entre aqueles que pretendem nos criticar acaba sendo encorajadora. Estamos trazendo algo novo para o debate político brasileiro. Somos poucos, mas cresceremos. Vejam as inúmeras iniciativas que surgem.  Vejam como cresce o número de eventos. Vejam os Estudantes Pela Liberdade.

Começar é sempre difícil. Ninguém é nosso aliado natural no duopólio político enraizado na mente da maioria. Esquerda tem um plano para a sua vida. A direita tem outro plano para a sua vida. Nós preferimos que você viva livre.

Que adultos sejam adultos, independentes e responsáveis pelos seus atos. Mas acima de tudo livres!

O seu dinheiro é seu. A sua vida é sua. E nós acreditamos que você sabe melhor do que nós todos o que fazer com ela.

* Atualizado às 13:54h. Na matéria, Murray Rothbard e não Mises é comparado ao ditador brasileiro Costa e Silva.

** Atualizado às 15:48. É mesmo com Ludwig von Mises que o repórter da revista Brasileiros compara Costa e Silva.