Diversidade, objetivos e regras

Liv

Em uma coluna anterior, escrevi sobre como o mercado promove a diversidade nos permitindo utilizar nossas diferentes vantagens comparativas em benefício próprio. Também observei como o mercado promove os objetivos daqueles preocupados com a diversidade, facilitando nosso contato com um maior número de pessoas, independentemente de sua raça, etnia ou identidade nacional. Quero destacar alguns desses temas neste artigo e aprofundá-los em uma abordagem um pouco mais teórica falando sobre a visão de Hayek sobre o liberalismo clássico e como ela se relaciona com a diversidade.

Hayek enfatizou que uma das grandes vantagens da ordem do mercado liberal é que, por ser necessária a concordância de opiniões em poucos casos, o espaço para coexistência pacífica e cooperação entre pessoas que discordam a respeito de muitas outras coisas aumenta. O indivíduo precisa apenas reconhecer que pessoas com diferentes preferências de consumidor conseguem não apenas coexistir, mas também participar de trocas mutuamente benéficas com produtores que atendem às suas necessidades. Ainda mais comumente, sociedades liberais permitem que pessoas com diferentes valores e ideais de vida encontrem maneiras pacíficas de interagirem para que alcancem suas respectivas metas.

Hayek compreendeu que uma sociedade só pode respeitar a diversidade se as pessoas concordarem em respeitar regras básicas, especialmente as que ele chamou de regras de justiça “independentes dos objetivos”. Essas regras devem permitir que todos os indivíduos busquem seus objetivos pacificamente, ao invés de almejarem certos objetivos sociais específicos. Ou seja, as regras não podem ter um propósito concreto; ao invés disso, elas devem ser gerais o suficiente para permitir a realização de diversos propósitos

Como o dinheiro e a língua

Nesse sentido, as regras de justiça são análogas ao dinheiro e à língua: ambos podem ser vistos como maneiras “independentes dos objetivos” de se alcançar uma variedade de objetivos. Dinheiro e língua não têm fim em si mesmos. Eles são simplesmente meios através do quais as pessoas podem alcançar seus propósitos e planos. Além disso, eles permitem a interação pacífica entre pessoas que discordam a respeito de objetivos.

O mesmo acontece com a ordem legal de uma sociedade liberal. Ao invés de termos de concordar a respeito dos objetivos, e o estado controlar os meios para alcançá-los, os mercados nos permitem entrar em um acordo a respeito dos meios, respeitando a diversidade dos objetivos.

Observe que o liberalismo clássico ainda requer um compromisso comum, não com um conjunto de objetivos ou valores, mas com um conjunto de meios que incluem um comportamento legítimo sob o estado de direito. A concordância sobre serem a propriedade privada, o contrato e as trocas meios legítimos para um indivíduo alcançar seus objetivos, assim como a concordância de que a força e a fraude não o são, unem os membros de uma ordem liberal.

É isso que torna possível a divergência pacífica a respeito de objetivos. A ordem liberal é o único meio de alcançar uma sociedade na qual diferentes preferências, valores e objetivos são verdadeiramente respeitados. De fato, a ênfase do liberalismo clássico na concordância a respeito dos meios sustenta a diversidade dos objetivos. No entanto, ao adotarmos a abordagem da justiça social, e exirgirmos que haja concordância nos objetivos, erradicamos a possibilidade de coexistirmos pacificamente com aqueles dos quais nossos objetivos diferem. Em outras palavras, a justiça social pode matar a verdadeira diversidade.

* Publicado originalmente em 23/02/2011.