Educação, Burocracia, Tecnologia e Progresso

Inovação e treinamento de mão de obra são as palavras da moda. Empregadores e empregados, todos querem ambas as coisas.

Quando se começa a discutir como chegar lá, a porca torce o rabo. Os caminhos parecem ser muitos e no meio ou no fim de todos há um abismo: a burocracia.

Em artigo recente de Simon Schwartzman, Cláudio Moura Castro e João Batista Oliveira citaram o velho educador Anísio Teixeira que já havia chamado o Mnistério da Educação e Cultura (esse era o nome antigo) de grande cartório da educação brasileira: servia para registrar diplomas. Na década de cinquenta, conforme os autores citados, Anísio disse que a educação brasileria era marcada por ter “tudo legal e tudo muito ruim”.

A situação mudou pouco. Por um lado a burocracia do Ministério da Educação continua a valorizar mais papéis do que tarefas eficientemente desempenhadas.

As inspeções de faculdades por inspetores do MEC são marcadas por exame de longa papelada cheia de termos pomposos, mas que não dizem nada. Depois disso, os professores inspetores dão uma nota e dizem se a faculdade ou curso pode funcionar ou não e sapecam-lhe uma nota.

A relação dessa avaliação com performance ajuda pouco na melhora do treinamento. O currículo é cheio de matérias desnecessárias que mais existem para dar empregos a professores daquelas especialidades do que a ensinar coisas realmente relevantes para o ensino das profissões.

Ajudam nesse processo os conselhos profissionais e ordens das mais de 150 profissões regulamentadas no Brasil, fazendo demandas que mais visam a limitar a oferta de profissionais do que a proteger os consumidores. A OAB, então, é mestre: pauta todos os outros.

Conclusão: as faculdades formam estudantes de olho no retrovisor, limitando-se a ensinar os que os professores disponíveis sabem e podem ensinar. Pouco tempo sobra para o que precisa ser ensinado para operar uma economia moderna.

As discussões giram em torno das notas das faculdades nos exames. As contagens dos estudantes limitam-se a reportar, em geral, quantos entraram. Pouco se preocupam com os que largam os cursos por frustração ou falta de perspectiva profissional. Saber o número de matriculados, portanto, é uma informação irrelevante. O importante é saber quantos se formaram e quantos conseguiram emprego (nissos os conselhos e as ordens ajudam um pouco).

Do meu ponto de vista, acho que alguma educação, por pior que seja, é melhor do que nenhuma educação. Só que isso custa caro e, ou pagam os estudantes por isso, ou nós todos que sustentamos o PROUNI, uma genial solução para salvar as faculdades privadas: dar dinheiro de impostos (ou seja o seu, o meu, o nosso dinheirinho) para sustentar cursos para os mais pobres que com eles talvez não cheguem a lugar algum. Isso, sem contar as universidades públicas que também são sustentadas pelo pagamento dos nossos impostos.

Peter Thiel, um dos fundadores do PayPal e um dos principais financiadores do Facebook, nos seus primórdios, criou uma bolsa de cem mil dólares para 20 estudantes universitários com menos de 20 anos de idade largarem seus cursos nas unversidades e dedicarem-se a inovar.

Uma diferença fundamental entre essas bolsas e as que são oferecidas pela esmagadora maioria das outras fundações educacionais: quem escolhe os bolsistas e os monitora são empresários bem sucedidos e não professores. Isso talvez nos diga algumas coisa a respeito de como buscar a inovação.

Cada um, entretanto, sabe onde lhe aperta o sapato. Os sapatos do MEC são macios e confortáveis, portanto ele não sente desconforto e tem dificuldades de avaliar o assunto. O importante é seguir as regras, por mais disfuncionais que sejam.

Há alguns anos, uma universidade privada com sede no Rio de Janeiro propôs-se a oferecer cursos cujas aulas seriam entre 11 da noite e 1 da madrugada. O vigilante MEC disse que não autorizava pois ninguém poderia estudar seriamente nesse horário. Depois da algumas escaramuças burocráticas, a tal universidade conseguiu a tão desejada autorização do MEC. Hoje estes são seus cursos mais bem sucedidos.

Os treinamentos do chamado sistema S (SENAC, SENAI e SENAT) felizmente estão livres do controle do MEC e por isso podem inovar.

Na década de sessenta do século passado participei de uma das pesquisas mais interessantes da minha vida. Destinava-se a criar um currículo para um cursos de auxiliares de escritório. Nós, os estudantes-entrevistadores, tínhamos que ir a empresas e passar um dia de trabalho inteiro observando um auxiliar de escritório fazendo tudo o que ele fazia, anotando e perguntando-lhe detalhes das tarefas.

Descobrimos, assim, o que era realmente necessário para ser um auxiliar de escritório pois a pesquisa colocou a mão na massa e viu o que a moçada fazia, não se limitou a perguntar. E, acreditem, descobriu que os auxiliares de escritório faziam muitíssimas coisas das quais nunca se lembravam numa entrevista. Esta foi uma pesquisa bem sucedida e realista e o sistema S formou gente importante. Como, aliás, disse um outdoor do SENAI, logo que Lula foi eleito presidente: “Esta sim é uma escola para presidentes”, ou qualquer slogan parecido.

Também imune aos controles do MEC, o SENAI agora oferece cursos técnicos das 4 da madrugada às 7 da manhã para jovens moradores no Complexo de Favelas do Alemão, no Rio de Janeiro. Os cursos estã lotados e têm fila. São um sucesso.

Será que os educocratas aprenderão alguma lição com isso?

A pergunta está feita. Vamos ver se alguém se aventura com a resposta.