Entrevista com os criadores de South Park

O trecho a seguir é transcrição de parte da conversa de Matt Stone e Trey Parker, criadores de South Park, com o Editor Chefe da Reason, Nick Gillespie, e Jesse Walker, Editor Administrativo da revista.

Reason: Vocês têm uma franquia bem sucedida e estão hospedados em um canal de uma grande corporação multinacional. Vocês se sentem preocupados quando fazem algo que possa colocar tudo a perder?

Parker: Esses últimos anos têm sido realmente maravilhosos. Nós de repente nos vimos nas manchetes novamente pelos programas que estávamos fazendo. E isso não foi uma coisa intencional. Tínhamos atingido um ponto onde estávamos muito confortáveis pensando "Sabe de uma coisa? É isso. Nós já ganhamos todo dinheiro que precisávamos e nós sempre sonhamos em fazer outras coisas." Mas logo que nos disseram, "Nós não vamos deixá-los fazer o episódio sobre Maomé" nós dissemos "Tudo bem, também não vamos mais fazer nenhum episódio para vocês nessa temporada".

Stone: Eles ficaram extremamente desapontados quando ligamos e dissemos que iríamos fazer o episódio de Maomé. Eles falaram "ah, mas vocês... Ai meu Deus, rapazes." Porque não podem nos dizer não. Se fossemos um programa menor, eles diriam apenas "não, vocês não podem fazer isso. Fim de papo." E um programa maior, como os Simpsons não se arriscaria a perder seus privilégios. Foi uma decisão burra politicamente, mas fomos burros o suficiente para tomá-la.

Reason: Estes são tempos bizarros para se estar vivo. Você tem lugares como o YouTube, onde pode criar qualquer coisa que queira e disseminar por aí. Ao mesmo tempo, você tem esses processos na justiça e tem pessoas sendo mortas, literalmente. Então, o que é o estado de livre expressão?

Stone: Nós, obviamente, temos uma visão bem parcial disso tudo. Basicamente, tudo que nós fizemos até agora foi dizer o que queríamos dizer e as pessoas nos deram dinheiro por isso. Nós adoraríamos ser como o Michael Moore e sair por aí dizendo "Eles estão tentando nos calar." Porque isso, imediatamente, faz as pessoas ficarem do seu lado.

As pessoas perguntam "então, como é trabalhar para um grande conglomerado multinacional?" E eu digo, "é bem legal, sabia? Nós podemos dizer o que quisermos. Não é ruim. Quero dizer, há coisas bem piores." Isso não quer dizer que não enfrentamos batalhas, como a do ano passado, quando você fica realmente frustrado com o fato de que Missão Impossível 3 é maior que South Park e eles podem ferrar você, mas no fim do dia você tem que olhar para o balancete.

Parker: No fim do dia, eles nos pagaram 40 milhões de dólares por um filme com bonecos.

Reason: Vocês fizeram um episódio onde os garotos encontravam os Cavaleiros dos Bons Costumes que explicaram a eles que não deviam dizer merda na televisão. Na verdade, aquela história parece dizer que há certos limites para o que você pode falar na TV. Existem limites que vocês não desafiariam?

Parker: Com certeza. Mas ano após ano, esse limite é algo diferente. Quando nós olhamos para os programas que fizemos há alguns anos – e pensamos que as pessoas enlouqueciam com esses episódios! Se você olhar agora para nossa primeira temporada, você poderia colocá-la na TV pública, junto com Vila Sésamo.

Stone: Os garotos são como Teletubbies, pequenos e bonitinhos.

Parker: Eles são apenas garotinhos bonitos. "Olha, ele está peidando fogo, que bonitinho."

Não é que a cada ano nós nos reunimos e pensamos, "quão longe podemos ainda ir?" Mas os limites são parte da diversão e o fato de que isso está na televisão também faz ser divertido que estejamos conseguindo fazer tudo isso.

Stone: E então, nós fizemos o filme de South Park e nós mudamos os limites de novo porque há diferentes limites para o cinema e para a TV.

Reason: No episódio "All About Mormons", uma família Mórmon se muda para South Park e um dos garotos descobre que eles até são legais. Então, eles brigam e no fim o garoto Mórmon lhe dá uma lição moral: "Olha, talvez nós Mórmons realmente acreditemos em histórias loucas que não fazem absolutamente nenhum sentido e talvez Joseph Smith tenha mesmo inventado isso tudo, mas eu tenho uma vida e uma família legal e eu tenho o Livro dos Mórmons para agradecer por isso tudo. A verdade é que eu não ligo se o Joseph Smith inventou isso tudo, porque o que a igreja ensina agora é amar sua família, é ser legal e a ajudar as pessoas. E mesmo que as pessoas dessa cidade achem que isso tudo é estupidez, eu ainda escolho acreditar nisso. Tudo que eu sempre fiz foi tentar ser seu amigo, Stan, mas você se sente tão superior e poderoso que você não poderia ignorar minha religião e ser meu amigo. Você ainda tem muito a crescer, cara."

Vocês são conhecidos por satirizarem as religiões. Essa passagem sugere que vocês vêem muitas coisas boas nelas também. Como vocês equilibram isso?

Parker: Eu sou fascinado com os Mórmons há um bom tempo. Eles são as pessoas mais legais no mundo. Se alguma religião for tomar o mundo e a que realmente acredita em "apenas seja super legal com todo mundo" for a dominante, por mim, tudo bem. Mesmo que isso tudo for besteira, tudo bem.

Reason: Como cada um de vocês foi criado em relação à religião?

Stone: Eu tive uma criação agnóstica. Não havia religião na minha casa.

Parker: Comigo foi a mesma coisa. Meu pai tentou me criar como Budista, como no budismo de Alan Watts, que é de certa forma budismo.

Reason: Eu tenho amigos Mórmons que estão convencidos que vocês foram criados como Mórmons, por conta de tantas referências nos episódios.

Parker: Bem, nós crescemos no Colorado. E Colorado está ao lado de Utah – como você sabe, a central dos Mórmons. Minha primeira namorada era Mórmon e eu fui experimentar uma noite em família na casa dela pela primeira vez. "O que vocês todos estão fazendo?" "Nós estamos sentados, cantando musicas e jogando jogos juntos." E eu pensei "Cara, isso é loucura. As famílias não deveriam fazer isso."

Reason: Também há muitas referências ao Judaísmo. Há todo um episódio sobre ir a um acampamento judeu, onde fazem trabalhos manuais idiotas. Vocês já foram a um acampamento Judeu?

Stone: Não, não. Eu nem sabia que eu era Judeu até eu ter 16 anos.

Parker: Eu tive que ensiná-lo a dreidel song.

Stone: Eu não sou um Judeu muito bom.

Eu acho que nós sempre tivemos a religião nos programas porque é engraçado. Quero dizer que há muitas coisas engraçadas sobre religião. Nós já fizemos coisas que são realmente anti religiosas de certa forma. Mas também seria uma piada muito simples só dizer "Olha que idiota" e então parar ali. Religião para nós é muito mais fascinante que isso. Então, desde o começo, nós sempre pensamos que seria mais engraçado mostrar o quão imbecil eram as religiões, mas também seus lados bons. As pessoas não saberiam se estávamos brincando.

Reason: Qual foi a reação de Mel Gibson ao episódio que vocês fizeram em 2004? No "The Passion of the Jew" dois dos garotos que se sentem traídos depois de pagarem para ver "A Paixão de Cristo" visitam Gibson em sua mansão em Malibu e pedem o dinheiro de volta. Vocês mostram Gibson como paranóico, delirante e insano.

Parker: O episódio estava bem além de seu tempo, eu tenho que dizer. Anos atrás nós mostramos Mel Gibson bêbado, sendo preso por um policial e falando um monte de besteiras. Tudo isso acabou acontecendo de verdade.

Reason: Há alguns anos, Matt, você disse, "Eu odeio conservadores, mas o quem eu realmente odeio são os esquerdistas." Quem você odeia mais por esses dias?

Stone: Essa é uma pergunta difícil. Obviamente, South Park tem muito de política, mas no fim nós queremos fazer um programa bom e engraçado. Nós não tentamos fazer algo do tipo, "olha só, essa é a mensagem que queremos passar". Mas coisas como a proibição do fumo na Califórnia e o Rob Reiner, nos animam. Quando nós fizemos aquele episódio do Rob Reiner ("Butt Out", de 2003), para nós, aquilo era só senso comum. Rob Reiner era só um grande alvo.

Foi aí que muitas pessoas começaram a nos chamar de conservadores: "Como vocês poderiam sacanear o Rob Reiner? Vocês têm que ser conservadores."

Parker: Um ponto importante é que nós dois crescemos no Colorado, nos anos 80, e nós queríamos ser punk rockers. Quando você é um adolescente no Colorado, a forma de você ser um punk rocker era sacanear, Reagan, Bush, o que estavam fazendo e falar como todos no Colorado são rednecks com uma arma e essas coisas. Aí, nós fomos para a Universidade do Colorado, em Boulder, e tudo mundo lá concordava conosco. E a gente pensava, "bem... isso não é tão legal, todo mundo concorda com a gente." E então você chega a Los Angeles. O único modo que você pode ser um punk em Los Angeles é chegar uma festa e dizer "digam o que quiserem sobre George Bush, mas vocês têm que admitir que ele é bem esperto". E as pessoas se perguntam "O que ele acabou de dizer mesmo? Tire ele daqui!"

Reason: Então, o que vocês odeiam nos esquerdistas? Você pode resumir isso em uma razão consciente e então da mesma forma entre os conservadores?

Parker: Bem, é uma boa pergunta.

Stone: Eu nunca tinha pensado sobre isso.

Parker: De uma certa forma, South Park tem uma fórmula simples que vem do primeiro episódio ("The Spirit of Christmas", que mostrava Jesus e o Papai Noel brigando para ver quem ficava com o Natal). Havia Jesus de um lado e o Papai Noel de outro, há o Cristianismo aqui e o comercialismo do Natal ali, e tudo está ali, exposto. E há esses quatro garotos no meio dizendo "Gente, calma". Team America também tem muito disso. Colocando um extremista neste lado e um extremista naquele lado. Michael Moore sendo um extremista é tão ruim quanto Donald Rumsfeld. É como se fossem a mesma pessoa. E precisam de um garoto da quarta série para lhes dizer "Vocês me lembram um o outro". O programa está dizendo que há um meio termo, que a maioria de nós, na verdade, vive nesse meio termo e que se são os extremistas os que têm os microfones é porque é bem mais interessante ouvi-los, mas, na verdade, esse grupo não é o mal, aquele grupo não é o mal e há algo a ser consertado aqui.

Exceto no caso dos Cientologistas. Porque esses não têm jeito mesmo.

Reason: Por que Hollywood é predominantemente esquerdista? Ou talvez nem mesmo esquerdista. Parece que muitas das pessoas nas indústrias do entretenimento só querem controlar as pessoas em questões específicas.

Parker: É tão simples de se entender. É sobre o que é legal nesse momento. E ser assim é o que há de legal, hoje em LA, então, todo mundo é assim.

Stone: Eu acho que eles pensam que isso é cool. Acho que muitos deles realmente acreditam no que fazem. Não é que seja algum tipo de conspiração. Há algo em relação às pessoas que viram atores que elas também viram esquerdistas. E eu digo que em Team America nós falamos exatamente o que queríamos falar e em South Park agimos da mesma forma. Ninguém nos diz o que dizer, então, podemos ter alguns pontos de vista discordantes, mas eles só querem ganhar dinheiro, sabe? E há uma certa beleza nisso.

Reason: Cada um de vocês em várias ocasiões já se chamaram de libertários. Essa seria uma descrição apropriada?

Parker: As pessoas começaram a colocar essa palavra por aí para nos descrever, por volta da segunda ou terceira temporada. Eles nos sentavam em algum lugar e perguntavam, "Então, você é libertário?" E eu dizia, "eu não sei, sou? Você viu o meu trabalho."

Eu ainda não tenho uma resposta exata para a pergunta. Mas acho que sou.

Stone: Eu acho que esta é uma descrição apropriada para mim, pessoalmente, e isso provavelmente se infiltrou no programa. Mas nós nunca tentamos fazer um programa libertário.

Reason: Quando você diz libertário, o que você quer dizer?

Stone: Eu usava Birkenstocks no Segundo grau. Eu era aquele tipo de cara. E eu tinha certeza que aquelas pessoas do outro lado do espectro político estavam tentando controlar a minha vida. Então, eu fui para Boulder e eu me livrei das minhas Birkenstocks imediatamente, porque todas as outras pessoas também as usavam e então eu vi que aquelas pessoas queriam controlar a minha vida também. Eu acho que isso define a minha filosofia política. Se alguém está tentando me dizer o que eu deveria fazer, então ela tem que me convencer que é algo que realmente vale a pena ser feito.