Escrevinhando o futuro

Doutrinação ideológica na sala de aula

Se o Brasil é o país do futuro, e as crianças são o futuro do Brasil, está na hora de tirar o manual de escatologia da estante.

As crianças brasileiras estão sendo treinadas por professores que vêm para doutrinar, propagandear e (se der tempo) instruir. Quem admite isso são os próprios, claro que com outras palavras. Como lembra a revista Profissão Mestre, a principal missão para 72% dos professores entrevistados pela CNT/Sensus seria "formar cidadãos conscientes". Mais de 60% pretendem "desenvolver a criatividade e o espírito crítico". Apenas 8% preferem transmitir conhecimento. Para quem não sabe, o resultado da equação cidadão consciente + espírito crítico - conhecimento básico = sujeito que sabe desenhar o bigodinho de Hitler na foto do George Bush, mas não consegue apontar Berlim nem Washington no mapa.

Um modelo do conscientizador crítico é o professor Leon Denis, de São Paulo. Ao ser acusado de doutrinar seus estudantes com a pregação do veganismo, o Prof. Denis se defendeu alegando apenas "apresentar o veganismo como uma solução ética a todos os crimes cometidos pelo homem aos não-humanos, aos ecossistemas e a si mesmo em nome de Deus, da ciência, da tradição, da ordem e do progresso". Não é necessário entrar no mérito da moralidade de se consumir produtos animais. Se a criança que toma danoninho é conivente na escravização dos bovinos não vem ao caso. O fato é que o veganismo não é uma solução para os crimes cometidos contra os animais. O veganismo se caracteriza exatamente por definir o que são os crimes cometidos contra os animais. Antes de apresentar sua solução, o veganismo se identifica como a criação de um problema (real ou não) que sequer passa na cabeça das pessoas que adoçam suas bebidas com mel de abelha. Seria como dizer que o marxismo é a solução para o problema do materialismo histórico quando, na verdade, o conceito de materialismo histórico só faz sentido dentro da estrutura de pensamento marxista.

Para evitar esses disparates, há quem reivindique vigorosamente que os professores sejam mais imparciais ao lecionar as matérias. É uma causa louvável. Desejo-lhes boa sorte na batalha, mas mantenho meu ceticismo. Se indignação pública bastasse para gerar uma mudança de comportamento, o único problema do congresso brasileiro seria providenciar a canonização em massa dos deputados. Com tanta indignação popular contra a corrupção, todos os nossos políticos já seriam santos.

Por isso, além do meu apoio à condenação pública dos doutrinadores, vou deixar três sugestões práticas.

A primeira seria mudar a estrutura do ensino brasileiro. Enquanto as propostas de Brasília acreditam que “o estado deve normatizar, controlar e fiscalizar todas as instituições de ensino sob os mesmos parâmetros e exigências aplicados no setor público”, os pais de alunos deveriam exigir um ambiente mais plural, que permitisse às escolas maior diferenciação de conteúdo. Nada de currículo unificado. Deixemos as escolas criar seus próprios programas de ensino. Professores e escola seriam recompensados por métodos diferentes para estudantes diferentes, em vez de procurar uma homogenia da educação.

A segunda seria fazer com que os vestibulares brasileiros se tornem mais parecidos com o teste padrão para as universidades americanas, o SAT. Enquanto os vestibulares tentam medir o "pensamento crítico" do aluno, assim como as informações prévias de determinadas áreas, o SAT tenta medir a aplicação da inteligência dos estudantes para a solução de problemas. Com um critério de avaliação que preza mais pela inteligência e menos pelo adestramento, as escolas enfocariam mais aprimorar as faculdades cognitivas dos estudantes, e não se preocupariam tanto em inculcar uma cartilha.

O terceiro é a possibilidade de criar nossos filhos de uma maneira menos burocrática — permitir a suas experiências educativas ir muito além da formalidade escolar. Não falo apenas de áreas como artes e esportes, mas também de atividades que permitam às crianças explorar possibilidades de empreender e trabalhar (e aqui não quero dizer ir para as fábricas ter os braços amputados, mas coisas infantis que garotos de outros países fazem, como entregar jornais ou cuidar do jardim do vizinho).

Recentemente, um artigo do Chicago Sun Times suscitou polêmica ao criticar umas crianças que estavam distribuindo limonada gratuitamente em algum bairro americano. A autora Terry Savage defende a prática comum nos Estados Unidos das crianças venderem limonada no verão por ensinar às crianças como a economia funciona num mundo escasso. Ao dar limonada gratuitamente, as crianças se esquecem de que tudo tem um custo e ficam acostumadas a pedir benefícios como se tudo viesse de graça.

Meu pedido é muito menos severo do que o de Savage. Gostaria apenas que as crianças brasileiras vissem esse empreendedorismo infantil como uma possibilidade, que desenvolvessem um senso de como é concebível servir aos seus semelhantes e ainda ser recompensado pelo serviço prestado. No Brasil, uma brincadeira dessas correria o risco de esbarrar numa burocracia mais complicada do que os pais da criança seriam capazes de entender.

Tratamos os estudantes como se todos estivessem se preparando para uma mesma carreira, a de professor universitário (com consciência crítica). Depois queremos que os professores com consciência crítica se tornem engenheiros, empresários, médicos, pilotos, padeiros e açougueiros. Não é de se espantar que um número exagerado deles acabem tentando ser professores, e muitos mais estejam dispostos a desistir de qualquer vocação para se tornarem funcionários públicos.

Minha esperança está em acreditar que a escola não tem o impacto que imagina ter. Quando converso com os estudantes brasileiros, vejo que muitos deles estão abertos a novas ideias e a novas experiências. Em vez de escrevermos sobre como tudo está perdido, devemos trabalhar para reformar o Brasil que queremos ser.