Estado-babá, por favor me acuda! (Edição Livrarias)

Nada contra o sucesso dos empreendedores, muito pelo contrário. São eles que estão na vanguarda do desenvolvimento. Em uma grande indústria, ou na cozinha de seu apartamento, o empreendedor vê oportunidade onde os outros nada veem e transformam suas ideias (e suas economias) em novos produtos e serviços -- pelos quais, espera, o mercado os remunerará.

O lucro gerado nessa operação, caso ele exista, é só dele e não tenho nada a ver com isso. Em um mercado livre o mesmo raciocínio deve ser aplicado aos eventuais prejuízos ou aos fracassos na atividade empresarial.

Há alguns meses, vinícolas brasileiras consideraram pedir ajuda ao governo para que fossem adotadas medidas que protegessem o mercado de vinhos brasileiro da concorrência dos vinhos importados -- de melhor qualidade, mais baratos, e mais consumidos no país.

Agora, reagindo à chegada da Amazon ao país, a Associação Nacional de Livrarias (ANL), "mirando-se na experiência da indústria cinematográfica", pede ajuda para a preservação da "bibliodiversidade" e para manter o vigor dos "distintos canais de comercialização".

A entidade escreveu uma carta aberta onde enumera os seus pedidos e expõe as suas razões.

Diferentemente do que ocorre no campo dos meios de comunicação, em que existem leis que disciplinam o mercado, regulando e limitando a participação de empresas multinacionais, no mercado livreiro e editorial brasileiro predomina quase que exclusivamente a livre iniciativa, com um claro déficit de proteção para a produção nacional. Quem tem poder maior de compra dita as regras, sem levar em conta a necessidade de preservação da bibliodiversidade, nem a importância de manter o vigor dos distintos canais de comercialização. (grifo meu) Sofremos hoje com baixíssimos índices de leitura e pequena presença de livrarias espalhadas pelo país. Segundo dados do IBGE, menos de um terço dos municípios brasileiros possui ao menos uma livraria. Este número, que por si é preocupante, vem diminuindo ao longo dos anos, tendo havido aumento da concentração nas regiões Sul e Sudeste e maior peso de grandes empresas varejistas.
Sugerimos que a diferença de preço a menor do livro digital para o formato impresso seja no máximo igual a 30%.

É do jogo: a Associação Nacional de Livrarias é obviamente uma associação de livrarias -- hoje preocupadas com a mudanças que inevitavelmente afetarão a forma como fazem negócio.

É do jogo, mas não é justo: pedir protecionismo para vencer concorrentes é tentar socializar os possíveis prejuízos de uma indústria. É responsabilizar o consumidor por ele não se interessar pelo seu produto. É mandar para ele a conta de um serviço pelo qual ele não quis pagar espontaneamente.

Os lucros de uma indústria que perdeu o seu lugar no mercado não podem ser garantidos pela força da lei. Perguntem à indústria fonográfica. Como os empreendedores bem sabem, as melhores iscas para a lucratividade são boas idéias, criatividade e inovação. Não é a imposição artificial de preços mínimos para um produto. Não é a menção a um claro déficit de proteção para produção nacional no mercado livreiro -- um mercado que mantém preços altos para a renda média do país e uma margem de lucro de 40%.

O empreendedor tem direito ao lucro derivado de suas atividades, mas em um mercado mais ou menos livre ninguém pode garantir que suas atividades continuarão a ser lucrativas para sempre. Mesmo que declaradamente preocupada com o avanço da cultura e da educação no país, a Associação Nacional de Livrarias não hesita em defender políticas que farão com que o preço dos livros permaneça nos padrões atuais. Em um país com baixissimos índices de leitura, outra constatação da carta da ANL, é difícil imaginar outra política que desse maior incentivo à leitura do que o aumento da oferta de livros e a queda dos preços, exatamente o que aconteceu após a chegada das grandes livrarias online e os ebooks.

A internet nos ensinou algumas coisas nos últimos 15 anos. As pessoas desejam filmes, músicas e livros, com conforto e preços baixos, sem se importar sobre quem os comercializa ou sobre como esses bens são comercializados. E se os brasileiros leem pouco, eles precisam de livros, e não de um modelo específico para a comercialização de livros.

A mera existência de mais livrarias não fará com que os brasileiros leiam mais. E mesmo se pudessemos relacionar a instalação de mais livrarias ao aumento da taxa de leitura, acredito que o problema desse terço dos municípios brasileiros sem livrarias parece estar resolvido agora: basta que tenham um computador com acesso à internet e pronto. Encontrarão mais livros do que a maior livraria do país poderia armazenar.

Mas isso não é tudo. As livrarias ainda podem exercer um papel fundamental mesmo depois da chegada dos ebooks como os cinemas ainda o fazem, mesmo que as pessoas possam assistir aos filmes em sua própria casa por uma fração do preço. Elas podem ser espaços de convivência, de encontro de pessoas com interesses comuns, de assistência pessoal e especializada, e também ponto de venda de livros de papel -- que muitos, como eu, continuarão a comprar.

A imposição de barreiras aos ebooks aprofundaria os problemas da relação dos brasileiros com a leitura, diagnosticados pela ANL em sua carta, e mataria os potenciais benefícios que a livre iniciativa pode trazer a esse mercado. Mas nesse caso, os benefíciados seriam os consumidores e não os livreiros.

Mais diversidade, concorrência e preços menores seriam mudanças bem-vindas em um mercado que é quase de luxo no Brasil. Para os comerciantes, o manual de sobrevivência no mercado permanecerá o de sempre, aplicável a qualquer empresário: inovação, criatividade, bons serviços e preços baixos.