Estados, religiões e preferências pessoais

Sou um otimista a respeito da história. A humanidade melhorou muito de séculos para cá, e mais ainda, de 1850 para 2010. Desigualdades persistem, mas, de várias maneiras, elas têm sido mitigadas, desde o maior acesso a bens e a uma vida melhor (alguém se lembra da vida sem vacinas?).

Desigualdades têm sido resolvidas ou minoradas por uma combinação de virtudes pessoais com políticas governamentais. Mas as grandes responsáveis últimas pela melhora geral foram a ciência e a tecnologia.

E para que elas evoluíssem, foi necessário libertar o pensamento e, sobretudo, a circulação da das ideias, para que, através de cooperação e aumento do conhecimento, o progresso pudesse ocorrer. Uma característica chave foi a separação entre estados e igrejas. É verdade que alguns estados ainda são teocráticos, mas eles são a exceção, não a regra.

No Brasil, várias religiões fazem-se representar no Legislativo, e é normal e bom que assim seja, porque o Legislativo é razoavelmente proporcional, ou seja, todas as ideias podem conviver e estar representadas. Da mesma maneira, convivem em paz diversas preferências individuais a respeito de como levar a vida.

Representantes de várias religiões escrevem em jornais, revistas, controlam redes de difusão através de diversas mídias. Ótimo que assim seja. Todos têm chances de expressar suas preferências.

No Executivo, as coisas são um pouco diferentes porque o ganhador leva tudo, por quatro anos. Isso foi o que ficou combinado na Constituinte de 1988. Com todas as suas imperfeições, ela é a regra máxima do estado brasileiro e o acordo foi respeitá-la.

Nos últimos dias que antecederam o primeiro turno das eleições, entramos por um caminho perigoso: preferências pessoais que estavam no âmbito do Legislativo (que é plural), foram trazidas para o âmbito da campanha pelo Executivo. E, como o detentor do Executivo leva tudo (contando, para isso, com recursos que vão das medidas provisórias ao poder de veto), estamos, de repente, ameaçados com a possibilidade da perda de pluralismo (e de defesa dos direitos das minorias) com a introdução de problemas teocráticos na campanha presidencial.

O resultado é retirar do âmbito do arbítrio pessoal, escolhas ligadas a preferências por estilos de vida, que variam em função de variáveis religiosas.

Continuarei, como articulista, a manter distância da campanha política. Como cidadão privado, minhas preferências, de candidatos e de políticas são minhas e de mais ninguém. Como articulista mantive e continuarei a manter distância dos vários candidatos e de vários políticas, menos uma, a liberdade. Os estados só devem intereferir quando as escolhas de uns na busca da felicidade (e na maneira de fazer essa busca) colide com a escolhas de outros.

Poderiamos viver perfeitamente com pessoas andando no meio da rua e veículos nas calçadas (é verdade que o design das ruas e estradas seria, certamente, diferente), mas, como disse um policial inglês ao escritor Fernando Sabino que insistia, ao voltar para casa depois de uma noitada, em andar pelo meio da rua, ele, o policial, não tinha nenhuma preferência. Para ele, tanto fazia que veículos andassem pelo meio da rua e pedestres pela calçada, ou vice-versa. O único problema, segundo o policial, era que haveria muitos acidentes durante o período de adaptação.

A introdução de temas teocráticos na campanha gera o mesmo risco. Estamos ameaçados de sofrer limitações à nossa forma de buscar a felicidade, pelo menos durante o período de adaptação.

Desde 1988, só me lembro de um membro do Executivo publicizando comportamentos religiosos que poderiam influenciar a neutralidade que dele se esperava como membro do Executivo. Felizmente a moda não pegou.

Candidatos ao Executivo visitam templos, igrejas, sinagogas, mesquitas, centros, ou o nome que tenham, de maneira cerimonial para expressarem seu pluralismo e assegurarem aos membros destas comunidades religiosas que suas crenças e preferências não serão objeto de interferências do governo. Tais visitas são um hábito saudável, que tem sido cultivado por políticos brasileiros.

Nos últimos dias desta campanha escorregamos para terreno perigoso. Aproveitemos as bananas, se delas gostarmos, ou evitêmo-las se delas não gostarmos, mas tiremos as cascas do caminho, pois, com estas, corremos, todos, riscos de escoriações generalizadas ou até mesmo de fraturas, das quais, felizmente estivemos livres recentemente.