Gratos aos aloprados bisbilhoteiros

Tempos houve em que o Brasil já foi mais perigoso. Quando as autoridades queriam falar conosco, passavam na nossa casa de madrugada e levavam-nos para destinos ignorados e não sabidos. Com frequência, o tratamento recebido nessas viagens forçadas não deixava boas memórias. Não importava a razão, o tratamento era democraticamente desagradável.

Não tenho partido nesse artigo. Os dois mais bem colocados candidatos para as próximas eleições, Dilma Rousseff e José Serra passaram por isso, de uma maneira ou de outra, aqui ou no Chile.

Em 1967, quando eu estava próximo de ir para a Universidade de Chicago fazer meu doutorado, tive uma conversa com uma senhora que muito respeitava. Ela havia vivido muitos anos perto do poder e contou-me que o trecho mais perigoso de uma viagem ao exterior era entre o Balcão da Polícia no Aeroporto, na saída, quando apresentávamos o passaporte para viajar, e a porta do avião. Era nessa “terra de ninguém” que as pessoas desapareciam discretamente e, muitas vezes, delas não se sabia por anos.

A alegada descoberta de violações de sigilo fiscal de cidadãos ligados a candidatos presidenciais tampouco é novidade. Sempre foi praticada pelas autoridades brasileiras e de outros países, com melhores ou piores motivações. Tampouco é privativa das autoridades brasileiras. Pelo menos dois presidentes norte americanos gostavam de mandar seus burocratas de confiança bisbilhotar a vida financeira e pessoal de inimigos políticos.

Nossos políticos e burocratas aloprados não são originais, nem tampouco menos perigosos.

Há dois problemas que os tornam semelhantemente perigosos. Primeiro, eles são permanentes. Políticos vão e vêm. Muitos perdem o emprego ao não serem reeleitos. Os burocratas ficam. Sabem muitíssimo sobre o funcionamento da máquina de informações do governo. Muito mais do que políticos jamais chegaram ou chegarão a saber.

Segundo, hoje eles dispõem de máquinas maravilhosas chamadas computadores e de complexas bases de dados capazes de juntar informações com uma rapidez e uma precisão que possibilita levantar suspeitas seriíssimas a respeito de cidadãos acima de qualquer suspeita. Outrora isso era manual, quase amador.

Quando meu apartamento recebeu uma dessas visitas de autoridades bisbilhoteiras, felizmente, eu não estava em casa. Depois de fuçarem minha biblioteca, meus arquivos, encantarem-se com minhas botas de neve e fascinarem-se com minha coleção de mapas de cidades estrangeiras que eu havia visitado, mandaram embora minha pobre empregada (que ficou refém de três cidadãos que nunca se identificaram durante três horas), não sem antes darem um telefonema para outro burocrata – esse sem face – e dizer que tinha havido um engano. Aparentemente eu era um cidadão sobre quem não pairavam dúvidas.

Tentei investigar das maneiras que os anos de chumbo permitiam e não encontrei rastros da “operação.” Não havia registro do fato em nenhum dos chamados órgãos de segurança que consegui, com meus modestos meios, investigar.

Um funcionário público amigo deu-me uma pequena informação que me abriu os olhos sobre como funcionava um dos aspectos do “sistema”. Disse-me ele que havia, pelo menos, duas notas na minha ficha. Primeira, que eu havia visitado a Bulgária em 1970 (fui ao Congresso Mundial de Sociologia). Segunda, da visita ao meu apartamento pelas “autoridades,” ficara o registro que eu tinha “sido envolvido no Affaire Xis”.

Complementou a autoridade amiga: as duas coisas, em si, não me comprometiam, mas “se algum dia você sair da linha” poderemos montar retroativamente uma história coerente para provar que você tinha antecedentes.

Isso foi quando as coisas eram feitas amadoristicamente, em fichas de papelão.

Hoje, computadores e programas que estabelecem associações entre dados que aparentemente nada têm a ver uns com os outros tornaram tudo muito mais perigoso. Ficou muito mais fácil “montar retroativamente uma história coerente para provar que alguém tinha antecedentes.”

E o pior, as pessoas que faziam isso há 20 ou 30 anos são as mesmas que fazem hoje. Se não são elas, graças às linhagens burocráticas que existem na administração pública brasileira, poderão ser seus filhos, netos ou quiçá bisnetos.

Assim, obrigado aos aloprados que nos permitiram dar espiadela rápida na capacidade que têm profissionais de juntar informações para desgraçar a vida de um cidadão.

Se você acha que está livre hoje porque tem uma posição importante, lembro a teoria de los matones, que me foi contada por um amigo cujo pai havia sido Vice Presidente de um país sul americano. A família tinha 12 guarda-costas. Nas poucas horas em que um golpe de estado virou a situação, saíram meu amigo (que tinha 13 anos) e seu pai pelos telhados da cidade, fugindo dos mesmos 12 guarda-costas que, como profissionais que eram, quando a situação virou, transformaram, imediatamente, seus protegidos em seus perseguidos.

Aquela senhora do princípio do artigo disse-me, também, que há um documento que burocratas não destroem em revoluções: os arquivos da política. Basta virar as fichas pelo avesso e os cidadãos respeitáveis de ontem passam a ser os perseguidos de hoje. Na revolução ou golpe seguinte, basta desvirá-las.

Estes tempos pareciam estar acabados, mas os aloprados fizeram-nos o favor de lembrar-nos quão vulneráveis somos a um grupo de pessoas sérias (e até bem-intencionadas), sobretudo quando em grandes grupos, e mais ainda quando trabalham para o governo. Se tiverem computadores modernos, então, nossas chances de salvação são muito pequenas.

Sempre haverá um inspetor Javert para perseguir um Jean Valjean por trinta anos.