Inflação: causas e consequências

O termo "inflação" é impreciso. O significado comum de "inflação" hoje em dia é um aumento geral do nível de preços. Neste contexto, o oposto da inflação seria "deflação", enquanto "estabilidade dos preços" significa uma situação em que o nível de preços não se move. Nenhum desses termos é um conceito exato. "Inflação", "deflação" e "estabilidade dos preços" são construções estatísticas e, como tais, sofrem de imprecisão e estão sujeitas a várias técnicas de apresentação. Por serem "dados oficiais", estão sujeitos à manipulação de acordo com os interesses políticos.

O que é inflação?

Diferente de seu uso corrente, "inflação" originalmente significa a expansão do estoque de dinheiro. Nessa definição, um aumento da massa monetária implica automaticamente um aviltamento da moeda. Quando a oferta de moeda inflaciona, cada unidade de dinheiro tem menos poder de compra.

É principalmente na teoria econômica da Escola Austríaca que o termo "inflação" continua a ser usado em seu sentido original. Isso faz com que quase só os economistas que trabalham na tradição dessa teoria estejam imunes a uma série de falácias que surgem com o uso do termo para designar um "aumento geral do nível de preços".

O principal problema com o conceito de "estabilidade dos preços" reside no fato de não existir tal estabilidade de preços em uma economia de mercado. Em um mercado dinâmico, os preços estão em constante mudança. A alteração dos preços relativos é instrumental para indicar novas áreas onde haja escassez relativa. Sem alterações de preços não pode haver alocação eficiente.

Não há benefício inerente se os preços em média permanecem “estáveis”, como dá a entender a expressão “nível de preços”. Se, por exemplo, uma economia registra ganhos de produtividade em grande escala, a maioria dos preços cairá se a massa monetária é mantida constante. Não há nada de ruim com essa "deflação". Dada uma oferta monetária constante, uma queda de preços significa que cada unidade monetária pode agora comprar mais mercadorias. Um aumento do poder de compra está acontecendo. Para o assalariado, isso significa que o seu dinheiro experimenta um ganho de poder de compra e assim, na terminologia moderna, "os salários reais" aumentam.

Os maestros da inflação

O moderno sistema monetário é um construto para lançar moedas nacionais sem lastro. Esse sistema é governado por políticos e seus agentes. A moderna ordem monetária não tem moeda forte como base. A produção da moeda artificial serve como instrumento para alcançar objetivos políticos. Assim, não é nenhuma surpresa que esse sistema monetário tenha dado lugar à era da inflação.

A base monetária que é fornecida pelas notas de dinheiro nacional forma a origem de um processo de expansão monetária que funciona através do sistema financeiro. Os bancos comerciais são capazes de multiplicar a base monetária existente, ampliando o crédito aos setores privado e público. O estoque de base monetária é transformado em quantidades de dinheiro sujeito à capacidade de emprestar e dependente da demanda por empréstimos.

Além de criar a base monetária, os bancos centrais exercem controle sobre os empréstimos bancários na medida em que regulam a taxa de reservas compulsória a ser realizada pelos bancos comerciais contra os depósitos de seus clientes. Se os bancos utilizam plenamente as suas reservas excedentes, a taxa de reservas compulsórias determina o fator pelo qual os bancos podem expandir a base monetária e gerar a oferta de moeda na economia.

Para a elite monetária, o ideal é uma expansão monetária elástica. Enquanto que para o setor privado é necessário expandir as riquezas de forma que os ativos cresçam em sintonia com a dívida, os governos conseguem aumentar a sua dívida além do que é autorizado por essa regra. Os governos tendem a se sobrecarregar com empréstimos acumulando dívidas além do que seria sustentável em termos da riqueza do país.

Para entender por que vivemos na era de inflação vale lembrar que a desvalorização monetária que traz benefícios para os devedores é, na verdade, um grande negócio para os que pertencem ao seleto grupo da elite monetária. Para entender as causas da inflação, precisamos perguntar quem pode ganhar com a expansão monetária.

O efeito Cantillon

O novo dinheiro entra na economia em pontos específicos e passa por ela em etapas. O dinheiro recém criado ainda tem o poder de compra antigo mas, a cada transação, o novo dinheiro puxa os preços para cima até que eles reflitam a desvalorização da moeda. Assim, os primeiros que conseguem se apossar do dinheiro novo comprarão a um preço que ainda é o produto da massa monetária do início da expansão monetária. Os preços de cada operação monetária mais tarde são maiores do que para a operação mais cedo, porque é somente com o tempo que os preços atuais refletem plenamente o enfraquecimento da moeda. Porque a moeda entra na economia passo a passo – e não de uma vez, como a grande maioria dos livros de economia monetária ensina –, a expansão monetária beneficia os que estão perto da fonte da criação da moeda e hoje em dia essa “mina de ouro” que pode produz dinheiro está na mão do governo.

Este processo no qual a moeda entra na economia em pontos específicos e passa por ela em etapas com cada transação se chama “efeito Cantillon”. A não ser na Escola Austríaca de Economia, esse efeito raramente é mencionado nos livros de economia monetária atuais. O que domina os livros são modelos nos quais se assume uma adaptação instantânea e homogênea do nível de preços à massa monetária. Dessa forma, aspectos importantes do processo inflacionário fogem do escopo da análise. Apenas se mantivermos a definição original de inflação como uma expansão da oferta de moeda se torna claro que a subida dos preços requer, em primeiro lugar, mais dinheiro disponível para pagar por esses preços.

Na terminologia correta, uma expansão do estoque de dinheiro é a causa, e o aumento dos preços é o efeito do processo inflacionário.

As consequências

O moderno sistema monetário promove um endividamento permanente. Enquanto o tamanho do endividamento é limitado ao setor privado não-financeiro, pela capacidade de endividamento estar ligada ao patrimônio e à renda, o setor bancário e o governo estão fora dessas limitações. Tecnicamente não há grandes obstáculos para imitar um sistema semelhante ao padrão-ouro com moeda fiduciária. Mas levando em conta que mais cedo pode-se apossar do dinheiro novo e mais fácil é transformar esse dinheiro em riqueza real, falta o interesse de manter o estoque monetário fixo. Assim o moderno sistema monetário de moedas fictícias sob a autoridade dos governos provoca crises financeiras sem acabar com o perigo constante de uma insolvência completa do setor bancário. Ao longo do tempo o sistema monetário de hoje anda no caminho dos ciclos de falência nacional e da hiperinflação.