Liberdade de Expressão e Terrorismo

Posso não concordar com nenhuma das palavras que você disser, mas defenderei até a morte o direito de você dizê-las” (Voltaire).

No dia 11 de setembro de 2012 a Embaixada Americana na Líbia foi invadida, e seu embaixador morto. Em menos de uma semana, 19 pessoas já haviam sido mortas em decorrência de violentos protestos em diversos países. Os protestos tiveram como motivo o filme "Inocência dos Muçulmanos". No filme, tanto os muçulmanos como o profeta Maomé são apresentados como imorais e violentos.

Tenho notado que várias pessoas, principalmente da imprensa e do governo, parecem atribuir certa razão aos radicais islamitas. Implicitamente parecem culpar o produtor do vídeo como responsável pela violência. Tal tese é um absurdo: culpado pela violência é quem a pratica. Ao culpar o produtor do vídeo determinadas pessoas flertam perigosamente com a censura. A liberdade de expressão é uma das maiores conquistas do mundo ocidental. Sua defesa não pode ser deixada de lado tão facilmente.

Como qualquer princípio, a liberdade de expressão também tem limites. Por exemplo, imagine que em junho de 1944 um jornalista tente divulgar os planos aliados de invasão da Normandia. É evidente que o Estado deveria impedir tal divulgação. Mas esse é um cenário extremo de guerra. A liberdade de expressão é uma garantia contra a tirania, e sua preservação deve ser feita a força se necessário for. Temos o legítimo direito de falar mal de Jesus, Maomé ou quem quer que seja. Temos o legítimo direito de falar mal do cristianismo, do judaismo e do islã. Certamente poderemos ser punidos por isso, mas tais punições serão feitas pela justiça, baseadas em regras jurídicas predeterminadas.

Não é admissível abrir mão da liberdade de expressão porque esta possui custos. É evidente que preservar a liberdade tem custos. Mas será que abrir mão da liberdade é isento de custos? Por acaso ceder aos radicais islâmicos, restringindo a liberdade de expressão, é isento de custos? Tão logo o mundo ocidental aceite as demandas dos radicais islâmicos, estaremos passando a eles a seguinte mensagem: quando quiserem concessões nossas basta nos atacarem. Sejam violentos, sejam radicais, nos tratem a base de pedradas e cederemos a vocês. Afinal, uma sociedade que cede tão facilmente a liberdade de expressão em breve cederá também a própria liberdade. É esta a mensagem que queremos passar? Se cerdemos a liberdade de expressão hoje, qual será a demanda dos radicais islâmicos amanhã?

A sociedade islâmica também possui os moderados. Se cedermos aos radicais estaremos diminuindo o poder relativo dos moderados. Em última instância estaremos condenando nossos aliados no mundo islâmico. Ao combatermos veementemente o radicalismo estaremos fortalecendo a corrente do islã que prega a convivência pacífica. Sendo este um passo importante para o futuro de nossas civilizações.

A conquista da liberdade de expressão foi feita à base de sangue. Não podemos abrir mão dela tão facilmente. A cantora Madona apareceu em um vídeo se masturbando com um crucifixo. Devemos sair por ai botando fogo em artistas? Claro que não. Preservar a liberdade de expressão é justamente preservar o direito dos indivíduos se manifestarem de maneiras que muitas vezes, a você próprio, parecem repugnantes.