Linguagem, civilização e tirania

Mesmo sem recorrer à literatura especializada, parece possível responder, com certa precisão, à pergunta “o que é uma civilização bem-sucedida?”. Isso porque, dentro de certos limites convencionais – mesmo pensando no lado oriental –, qualquer um pode afirmar, com um mínimo de conhecimentos de história, se uma dada civilização é ou não digna de nota; mesmo sendo a história contada pelos vencedores, uma civilização já extinta, desde que tenha atingido certo nível de influência, deixa sinais muito claros da sua força, por pequena que seja em termos quantitativos.

Observando dados básicos de história geral, alguns nomes aparecem: os persas, os gregos, os romanos, os babilônios, os indianos, os chineses... e muitos outros. Parece fora de questão que foram povos bem-sucedidos. A conexão que gostaria de fazer é com o uso da linguagem: onde há boa gramática, lá existe civilização.

Gramática não significa complexidade linguística formal. Tenho em conta, lembrando de conversas informais com linguistas, que uma “língua complexa” não está diretamente relacionada com uma nação desenvolvida e poderosa. Há línguas extremamente ricas dominadas apenas por pequenas tribos ou nações; é o caso, por exemplo, do geórgico, idioma falado na pequena e caucasiana Geórgia ou Sakartvelo, república que mais ou menos recentemente se libertou do domínio russo-soviético: o seu verbo é formado por sufixos e prefixos variados; alguns deles aglutinam até oito morfemas diferentes, cada um deles contribuindo para o sentido integral do vocábulo-ação. Isso não fez desse povo uma nação especialmente poderosa. Não é esse o ponto, como veremos.

Richard Mitchell, um "educador" americano, fez uma observação pertinente. Ele diz que, muito mais do que no campo de batalha, as guerras são travadas nas mentes dos homens, no plano da linguagem. Se, argumenta ele, ao invés de dizer: We shall fight on the beaches, we shall fight on the landing grounds, we shall fight in the fields and in the streets, we shall fight in the hills (“Lutaremos nas praias, lutaremos em terra de pouso, lutaremos nos campos e nas ruas, luteremos nas colinas”), Churchill tivesse dito: Consolidated defensive positions and essential preplanned withdrawal facilities are to be provided in order to facilitate maximum potentialization for the repulsion and/or delay of incursive combatants, etc. (“Posições de defesa consolidadas e instalações de recuo pré-programadas deverão ser fornecidas de modo a facilitar uma máxima potencialização para a expulsão e/ou retenção de combatentes invasores”), certamente a retórica de Hitler teria vencido.

Sua tese é que as palavras e a articulação da linguagem de modo competente exercem uma imensa influência sobre a sociedade como um todo. Mas não só no plano da oralidade (se bem que no exemplo de Churchill não temos apenas oralidade: foram discursos escritos e lidos por um futuro prêmio Nobel da literatura). Se é verdade que muitas civilizações prosperaram sem a escrita, a sua capacidade de permanência e resistência em nada se compara à das civilizações dotadas de uma literatura expressiva. “A escrita”, diz Bacon, “faz o homem exato”. E isso ocorre porque a escrita constitui um registro de cadeias de pensamento e raciocínio que podem ser retraçadas, reconstituídas – como diz Mitchell; e isso permite que descubramos onde erramos, “onde fomos estúpidos”. Por outro lado, nos torna homens: adultos que sabem onde estão, capazes de escolher o que é e o que não é relevante no ambiente caótico do mundo natural.

Assim, um homem que sabe escrever bem – usar bem a sua língua nativa, de acordo com os contextos, os costumes e as regras gramaticais – sabe também pensar e portanto é maduro, ao menos do ponto de vista cultural. “Uma educação que não ensine a escrever de modo claro e coerente não pode dar ao mundo adultos pensantes; ela nos dará, ao invés disso, crianças espertas de todas as idades”, escreveu Mitchell em Less Than Words Can Say [Menos do que as palavras podem dizer].

De qualquer modo, há muito tempo a escrita (a literatura em prosa e em verso) tem sido sinal de civilização. E o que é ainda mais interessante: ela tem sido o melhor recurso para uma efetiva resistência quando a liberdade de um povo é ameaçada pela tirania. Para citar um exemplo recente: os tibetanos nunca teriam forças para resistir por tanto tempo ao domínio da China comunista sem a sua enorme reserva espiritual-literária (por sua vez herdada das tradições indianas orais e, desde o século X d.C., predominantemente escritas). O mesmo ocorreu com a Polônia: enquanto o comunismo avançava, aparentemente destruindo para sempre a cultura polonesa em suas manifestações públicas superficiais, esse povo heróico e profundamente tradicional resistiu bravamente no subterrâneo, encenando em segredo peças de teatro e contrabandeando clássicos da literatura (basta ler qualquer boa biografia de Karol Woityla, o papa João Paulo II). Quando as invasões de um lado e de outro terminaram, os poloneses voltaram ainda mais unidos.

Se queremos fazer parte do lado civilizado da história e estarmos sempre preparados para reconhecer a tirania – especialmente sob as suas formas mais sutis de dominação, como a ideológica – e resistir a ela, o único remédio eficaz é ler e escrever, assimilar, criar e recriar a cultura.

Se está de acordo com essas premissas, cabe ao leitor julgar se nosso país está ou não ocupado com essa atividade.