Mais impostos: ENEM obrigatório e aumento dos dias letivos

Em geral, quando falamos ou pensamos em impostos, a primeira ideia que ocorre é que teremos que pagar algum dinheiro ao governo, mas o imposto nem sempre é cobrado em dinheiro.

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O primeiro imposto não financeiro que me ocorre é o serviço militar obrigatório. Ele não passa de um imposto cobrado em tempo: cidadãos são obrigados a passar cerca de um ano de suas vidas sem investir em si mesmos, seja educando-se, divertindo-se ou trabalhando produtivamente. São forçados a passar esse período ganhando um salário vil, em nome da segurança da pátria. Tenho dúvidas se esta aumenta por causa daquele.

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Agora o governo resolveu cobrar mais dois impostos dos cidadãos.

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O primeiro, tornando o ENEM obrigatório. As alegações ministeriais são que a tarefa de selecionar os alunos não pode ser da universidade e que no mundo inteiro é assim. Potocas. O exame existe em alguns países e em outros não. Nada contra ele existir facultativamente; faz quem quer. Além do mais, quanto mais gente tiver que fazer o ENEM obrigatoriamente, mais dinheiro vai custar, e são caraminguás que sairão do meu, do seu, do nosso bolso.

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Segunda potoca: esta tarefa não pode ser da universidade. Outro absurdo. Em muitas universidades não existe obrigatoriedade de prestar o exame equivalente ao ENEM, onde ele existe, para ingressar na instituição.

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Para começar, na universidade em que estudei (Chicago), entra qualquer um que prove a sua competência em entrevistas ou testes administrados pela universidade ou consiga convencer uma banca de professores que tem mérito e competência para cursar o que pretende. A rigor, não precisa, sequer, ter ido a qualquer escola na vida para ser admitido. Pode ter estudado em casa ou ser autodidata. É assim que as universidades caçam gênios. Esquadrinhe as notícias e verá um enorme numero de adolescentes de 13 anos para cima estudando em universidades, sobretudo americanas. Depois as pessoas perguntam por que os Estados Unidos são o país cientificamente mais avançado do mundo.

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A segunda ideia maluca é aumentar o número de dias letivos, como se o tamanho do ano letivo fosse o melhor ou o único fator que determinasse a qualidade da educação. Mais tempo na escola não significa educação melhor.

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Assisti recentemente à palestra do economista Sergei Soares em que ele apresentou resultados de uma pesquisa feita no Brasil que constatou que, em média, 26% (um quarto) do tempo que os alunos passavam nas salas de aula das escolas era consumido com tarefas não educativas. Chamada, administrações diversas, punições. Professores escrevendo no quadro e coisas do tipo.

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Fiz o secundário (hoje os quatro últimos anos do primeiro ciclo e os três anos do segundo ciclo do ensino fundamental) numa escola religiosa, marista. Além das aulas que supostamente teriam utilidade na vida prática, nas quais tentaram ensinar-me matemáticas inúteis, geografias de pouca serventia, geometria totalmente inútil, entre outras. Além disso havia uma matéria obrigatória e que era lecionada todos os dias: religião. Consumia 20% do tempo total de aulas. Como parte dela eramos todos obrigados a rezar um terço inteiro, coletivamente, em voz alta, todos os dias. Para quem não está familiarizado são 53 ave-marias, 6 padre-nossos, um credo e um salve rainha (espero não ter esquecido nada), repetidos todos os dias.

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Tenho certeza que nenhuma destas aulas contribuiu para que eu fosse um melhor cidadão ou um melhor profissional. Quanto à reza do terço foi o investimento mais incerto e arriscado que fiz na vida, cujo resultado só saberei quando morrer. Só aí, se houver paraíso, purgatório e inferno, saberei se aqueles oito anos de terços rezados cinco vezes por semana terão algum retorno.

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Aprendi muito mais lendo o Tesouro da Juventude (uma coleção de livros com assuntos sortidos para jovens que era uma espécie de combinação de revista Galileu com Super Interessante. Mais ainda aprendi sendo escoteiro dos 14 aos 19 anos, do que na escola, bem como vendo meu avô trabalhar no hobby dele: radiotécnico.

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Agravante: o ENEM obrigatório, além de cobrar mais tempo dos alunos (que poderia estar sendo utilizado em atividades mais produtivas ou mais prazerosas), ainda nos aumentarão os impostos cobrados em dinheiro para financiar essa farra, o que ainda aumentará mais o poder dos educatecas sobre as mentes dos jovens.

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Além do mais, hoje, com a revolução eletrônica e de computação—cuja extensão verdadeira ainda não sabemos—é possível aprender, talvez, muito mais, com um computador ou um tablet ligados, do que ouvindo a cantilena de alguns professores que estudaram há mais de 15 anos em escolas ruins, tentando ensinar coisas ultrapassadas e/ou de pouquíssimo interesse ou utilidade.

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Quem quiser, pode, hoje, eletronicamente, ter acesso a inúmeros cursos e palestras feitas por cientistas e pesquisadores que estão nas fronteiras do conhecimento, sem pagar um tostão.

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Assim, aqui vão duas perguntas para reflexão e eventual mobilização política: será que tornando o ENEM obrigatório e mantendo os estudantes por 220 dias de 365 na escola, teremos uma educação melhor? Os cidadãos serão mais felizes e o Brasil se desenvolverá mais se todos tiverem que fazer um exame anacrônico?