Mario Vargas Llosa sobre a identidade latino-americana

"Apesar da universalidade da América Latina, uma de suas obsessões recorrentes tem sido definir sua identidade. Na minha opinião, essa é uma empreitada inútil, perigosa e impossível, porque identidade é algo possuído por indivíduos e não por coletividades, pelo menos desde que elas tenham transcendido as condições tribais. Somente nas comunidades mais primitivas, onde o indivíduo existe apenas como parte da tribo, é que a idéia de uma identidade coletiva tem alguma raison d'être. Mas, como em outras partes do mundo, essa mania por determinar uma especificidade metafísica ou histórico-social para uma aglomeração tem causado o fluir de oceanos de tinta latino-americana, gerando diatribes ferozes assim como polêmicas intermináveis. (...) A riqueza da América Latina está em ser várias coisas simultaneamente - tantas, na verdade, que é um microcosmo no qual todas as raças e culturas do mundo coexistem. Cinco séculos após a chegada dos europeus a suas praias, serras e florestas, os latino-americanos de descendência espanhola, portuguesa, italiana, alemã, africana, chinesa ou japonesa são tão "nativos" ao continente quanto aqueles cujos ancestrais foram os antigos astecas, toltecas, maias, quechuas, aimarás ou caraíbas. E a marca que os africanos deixaram no continente, onde vivem por cinco séculos, é omnipresente: nas pessoas, língua, música, comida e até em certas formas de se praticar a religião. Seria um exagero dizer que alguma tradição, cultura ou raça deixou de contribuir para o vértice fosforecente de misturas e alianças diluídas em todas as ordens da vida latino-americana. Essa aglomeração é nosso maior patrimônio: ser um continente que não possui uma só identidade porque contém todas as identidades. E, graças aos seus criadores, continua se transformando a cada dia."

Mario Vargas Llosa parece se contradizer nesse ensaio da edição de fevereiro de The American Interest. Em um momento nega a existência de uma identidade coletiva em uma grande sociedade para depois exaltar a identidade coletiva da América Latina (ainda que constituída por várias outras identidades coletivas). É possível identificar certas características generalizadas entre as pessoas de certas sociedades. A empreitada que considero realmente "inútil, perigosa e impossível" é a identificação de uma pureza cultural, uma idéia moderna que leva apenas à intolerância e ao próprio empobrecimento da cultura. É importante nos lembrarmos de que as características de qualquer sociedade florescem das relações entre os indivíduos. E de que qualquer tentativa de fechá-los em uma identidade bem definida tende a tornar estático aquilo que é fluido e a reprimir o que é espontâneo.