Nadando contra o senso comum

De tudo o que a escola nos ensina, é difícil usar mais do que 10% na vida adulta, quando se escolhe uma profissão para se aprofundar. Infelizmente, o saber que deveria ser útil a todas as áreas de especialização é negligenciado pela educação moderna: aprender a como pensar, não o que pensar.

A educação superior medieval buscava a formação especializada nas áreas em que havia alta demanda na sociedade: Direito, Teologia, Engenharia. Restava às academias liberais o ensino de uma robusta forma de pensamento que garantia uma formação intelectual mais “geral”: a lógica, a retórica, a gramática (o Trivium) e a aritmética, música, geometria e astronomia (o Quadrivium). Nas universidades, aprendia-se uma profissão. Nas corporações, aprendia-se a se pensar.

Sem uma hierarquia tão poderosa por detrás, eram nas corporações que se confrontava o statu quo do pensamento dominante nas Universidades, na Igreja e na política. Foi unindo jovens que seriam educados na profissão dos pais, mas que não poderiam adentrar no estamento superior medieval, que os pajens e pedagogos sistematizavam e ensinavam o que acabaria sendo hoje a nossa educação de base. Também daí é que surgiram as primeiras guildas e corporações de ofício, com a sistematização de determinados conhecimentos para um fim objetivo. Filho de peixe, peixinho é. Não à toa que a livre transmissão do pensamento, desde o surgimento das Universidades, deve-se mais ao comércio e às artes liberais (ao livre pensar) do que à tradição da Universidade – deixando clara a sua importância cabal de manutenção das tradições que fundaram o Ocidente.

Hoje, a educação é sistematizada desde a base, mas praticamente todas as artes liberais foram expulsas do currículo elementar das escolas no mundo todo, ficando apenas a aritmética sendo ensinada sem fundamento – apenas números e abstrações sem sentido, e não sobre um saber uniformizado, ligado à mecânica, aos planetas, à harmonia musical, às proporções do belo já conhecidas pelo Egito antigo. A gramática também é reduzida à decoração de regras da gramática normativa, sem o devido pensamento lógico que a sustém e a torna uma forma poderosa de entendimento da realidade. Ainda hoje, se quisermos aprender como pensar, apenas algumas matérias em faculdades desconectadas de profissões práticas, como Filosofia ou Letras, podem nos ajudar: ainda devemos buscar um curso livre – reminiscências das corporações de ofício e das artes liberais, cada vez mais desconectadas, perdidas, desligadas de profissões, incompletas e sem ligações com os grandes clássicos que determinaram sua força histórica.

Aprender como pensar não é apenas útil para filósofos e críticos culturais – é especialmente importante para as pessoas cujas profissões determinam os rumos da inovação, da política, da economia e do que temos de mais tangível em nossa vida cotidiana.

Se não é mera coincidência que a livre troca de conhecimentos tenha vindo justamente com a livre troca comercial para gerar o Renascimento e todos os momentos da História em que as pessoas melhoraram seu padrão de vida, se é tão óbvio no dia-a-dia que uma troca livre (mesmo emprestar mutuamente um livro) gera mais riqueza do que apenas os dois livros iniciais em separado, é incrível como a liberdade de ação, de produção e de troca ainda seja absurdamente mal vista em qualquer curso que visa lidar com as relações sociais em larga escala.

Na verdade, com tantas pesquisas, teorias e ideologias vistas sem o prisma de um pensamento lógico e escorreito, aprendemos a deixar de enxergar a realidade. Aquilo que fazemos e buscamos fazer todo dia com prazer – nem que seja comprar um cachorro-quente na barraquinha perto de casa – é visto, dentro de uma teoria mais abstrata, como algo a se evitar. O empreendimento, o investimento, a poupança, o livre comércio, assim que adquirem esses nomes pomposos, são encarados como inimigos.

Um lado curioso, porém perverso, desta visão, é que é extremamente difícil conhecer alguém com alguma formação que não se considere “crítica” do que vê e ouve. Com um pequeno revés: toda a sua crítica costuma ser repetição de crítica passada. Alguém critica algo uma vez, outros acreditam na crítica e, por esta, supostamente, ser uma crítica, acreditam que também estão pensando criticamente, e não apenas reproduzindo um discurso que se supõe crítico em si.

Nunca se pode criticar quem “criticou” primeiro: isso, ao invés de ser uma crítica maior, seria apenas seguir o senso comum. Curiosamente, todo o “senso comum” intelectual, até hoje, critica um suposto senso comum que ninguém segue. E ninguém é capaz de discutir se uma crítica a algo é boa ou ruim – apenas já acreditam que algo é ruim porque foi, um dia, criticado.

É esta a situação do liberalismo hoje no Brasil e no mundo: a liberdade econômica pode diminuir a olhos vistos, sempre que se critica algo que não está funcionando (como a crise de 2008), critica-se “o liberalismo”. Analisando a questão com um minimozinho de rigor, é apenas uma generalização grotesca: é como culpar os pobres por terem de comer – culpar o “sistema” é culpar o que temos de mais genérico, e não os problemas pontuais, que muitas vezes são justamente as tentativas de ir contra o sistema.

Também carece de uma noção de proporção aritmética: o que é a “maior crise do liberalismo” desde 1929 (praticamente um século sem grandes crises econômicas – que outro sistema já conseguiu isso?), comparada ao que a humanidade toda (incluindo todos os países que hoje chamamos de “ricos”) padeceu sem o liberalismo?

É uma questão também gramatical. Como dar o nome de “liberalismo” ao que é pouco liberal? Como usar conceitos tão esponjosos, sem limites definidos, se queremos ser cientistas sociais? Ainda há a retórica deslumbrada dos críticos, que criticam sem rigor fatos sem conexão, acreditando tratar-se de um fato único – quantas vezes o liberalismo é culpado pelo enxame do sistema prisional, quando a maioria dos liberais é a favor da legalização das drogas, por exemplo?

O liberalismo hoje é mal visto por uma razão muito clara: deixamos a educação ser dominada por ideologias e segmentamos a educação, acreditando que as artes liberais são apenas objeto de estudo de uns raros acadêmicos sem profissão – que não formar novos acadêmicos idênticos. Para ter alguma esperança, é preciso apresentar um modo de pensar que separe coincidências e conceitos, que saia da academia, que tenha uma retórica adequada, que mostre que a liberdade de pensar e de agir e a liberdade econômica são distinções meramente formais da mesma liberdade, e não se pode perder uma sem perder as outras, como o é com peças do motor de um avião.

Os melhores conceitos, as melhores análises e o melhor senso de proporção, nisso os liberais já são campeoníssimos há mais de 2 séculos.