O Brasil no voo de galinha

Não veio de surpresa que o governo brasileiro entrou em clima de pânico quando a taxa de crescimento econômico baixou a um magro 2,7 % em 2011. Não demorou muito e o governo começou programar medidas erradas.  Em vez de derrubar a carga tributária, cortar o excesso de gastos públicos ineficientes, desburocratizar a administração pública e facilitar a atuação de empresas privadas para dinamizar a economia, o governo brasileiro tomou o caminho mais fácil e vendeu-o como política de crescimento: cortou as taxas de juros para impulsionar a expansão do crédito. Dado que a poupança no Brasil é muita baixa, medidas deste tipo distorcem a estrutura de capital, provocam maus investimentos e consequentemente terminam em inflação, estagnação e recessão. Mais uma vez o Brasil está em pleno processo de fabricar um voo de galinha.

A galinha em ação 

Num livre mercado financeiro (que precisa ser imaginário porque na realidade de hoje não existe) a taxa natural de juros reflete as preferências temporais. Assim a taxa natural de juros informa sobre o grau de preparação dos agentes econômicos para reduzir o consumo abaixo do potencial a fim de ter uma maior produção ou uma melhor produtividade no futuro. No caso de um processo de crescimento natural o consumo real permanece abaixo do potencial e libera assim recursos para a acumulação de capital. O tempo de espera até a maturidade dos projetos de investimento reflete o grau da preferência temporal.

No sistema financeiro atual há bancos centrais que procuram controlar a massa monetária e determinar a taxa de juros. Assim a taxa monetária de juros que o banco central pretende fixar pode ser diferente da taxa natural de juros. Quando o banco central reduz a taxa monetária de juros abaixo do nível natural ele sinaliza a disponibilidade de mais recursos para investir que na verdade não tem em termos reais. No entanto, dado que a preferência temporal dos atores econômicos não mudou, a menor taxa de juros induz uma redução da poupança autêntica e impulsiona o consumo enquanto ao mesmo tempo os investimentos empresariais iniciam projetos com prazos de maturidade mais longos.

Quando a política monetária reduz a taxa de juros por meio da ação do banco central abaixo do seu nível natural os investidores estão sistematicamente enganados sobre a disponibilidade de fundos. As empresas se encontram incentivadas a estender a estrutura de capital enquanto a disponibilidade de recursos não aumentou em termos reais. Como consequência a estrutura de capital se torna distorcida: partes específicas dos estágios da produção são expandidas em detrimento de outras.

A estrutura de capital como um processo de produção existe em cadeias de etapas.  Alguns destes estágios estão mais longe do consumo final, outros mais perto. Na produção de pães, por exemplo, cozer o pão e colocá-lo no balcão está mais perto do consumo que plantar o grão ou transformar o grão em farinha. O grau do desvio produtivo da estrutura de capital é determinado pela poupança autêntica. Assim a disposição da população de desistir de uma parte do potencial de consumo em favor de ter mais no futuro fornece o caminho natural de acumulação de capital e determina o tamanho dos investimentos sustentáveis.

Se o impulso de investir é o resultado de manipulações monetárias, investimentos errados acontecem. Por exemplo, no caso da produção de pão, os investidores expandem o equipamento para cozinhar mais pão na padaria, mas por falta da poupança nacional os recursos complementares não estão disponíveis para produzir mais farinha. A estrutura da produção está fora de sincronia. Em vez de ganhar mais potência produtiva com um maior nível de produtividade, investimentos falsos são feitos e em vez de haver uma acumulação de capital, o oposto acontece. Finalmente, a má alocação de recursos se mostra em inflação, estagnação e recessão.

A trajetória do voo de galinha

O Brasil sofre de forma contínua de baixas taxas de poupança tendo, assim, recursos insuficientes para acelerar os investimentos. Regulamentações, tributos, ineficiência judicial e da administração pública, corrupção em todas as esferas da política, juntamente com uma profunda negligência da educação e incompetências em quase todas as áreas do setor público provocam baixa produtividade, fraca competitividade e falta de inovação da economia brasileira.

Enquanto o governo cresce, o setor industrial diminui. Enquanto se gasta mais do que a produção real permite, há persistente inflação e consequentemente confrontos laborais sem fim. Enquanto a iniciativa privada existe e enquanto há espírito empreendedor em massa, a política intervencionista e controladora do governo suprime e sufoca o dinamismo potencial da economia privada brasileira. Em vez de implantar reformas sérias para promover o desenvolvimento econômico o governo prefere zombar da moeda nacional e manipular a taxa de juros no seu interesse político. Em vez de limpar as leis de contradições e redundâncias, o governo brasileiro produz uma inflação legislativa ao lado da inflação monetária. Assim o voo de galinha é programado.

Com a ausência de ganhos de produtividade os impulsos monetários alimentam cada vez mais o aumento dos preços. Com maior inflação de preços o multiplicador monetário e a velocidade de circulação do dinheiro sobem e a inflação acelera ainda mais. A relação entre o nível de endividamento e a base produtiva se torna mais desequilibrada. Nesta fase do voo de galinha um pequeno choque adverso é suficiente para quebrar a conjuntura. O crescimento econômico se mostra como quimera e na fase de contração da economia os desequilíbrios tornam-se visíveis e o desemprego aumenta. Enquanto a população sofre de mais desemprego e menos renda, os demagogos do populismo econômico acusam “o mercado” e “o capitalismo” e preparam um novo lançamento do voo de galinha. Para os intervencionistas nos governos o fracasso mesmo da própria política econômica serve cada vez como nova justificativa de fazer ainda mais do mesmo que causou o desastre inicialmente.

Conclusão

Se mais dinheiro fosse o caminho para a prosperidade, todos os países do mundo poderiam tornar-se ricos em um instante porque nada é mais fácil para um governo do que aumentar a massa monetária e manter os juros baixos. Uma expansão artificial de crédito iniciada pela política monetária provoca ilusões sobre a sustentabilidade de novos projetos. A economia embarca numa trajetória insustentável e o ciclo econômico finaliza num colapso. A galinha que nunca foi concebida para voar retorna para o chão.