O capitalismo de estado entra na bancarrota

A crise atual não é uma crise do capitalismo, mas sim uma crise do capitalismo de estado. Capitalismo de estado é o termo usado para designar os sistemas socioeconômicos que são caracterizados pela simbiose precária entre o estado e o capitalismo, entre a política e o mercado. O capitalismo de estado é um regime no qual o estado exerce controle direto sobre uma grande parte da economia e indiretamente sobre quase toda a economia e a sociedade. O capitalismo de estado é o sistema preferido de regimes autoritários e ditatoriais. No entanto, o capitalismo de estado também se tornou comum nos países chamados democráticos. Como mostrou a história do século passado, até mesmo as democracias têm a tendência de adotar cada vez mais instrumentos autoritários e de se transformar em um sistema de capitalismo de estado. O absolutismo monárquico dos tempos passados hoje se encontra como capitalismo de estado na forma de um absolutismo democrático.

O princípio

O capitalismo de estado tem como base a corrupção e o suborno. O capitalismo de estado é um sistema onde os subornos servem para ganhar e manter o poder. Os beneficiários da gama de subornos são empresas, sindicato e funcionários públicos, por exemplo, bem como setores específicos, tais como o militar ou o setor financeiro. Entre as muitas variedades de capitalismo de estado se destacam o corporativista, plutocrático e cleptocrático.

Como é baseado em suborno, o sistema de capitalismo de estado está em permanente necessidade financeira. As autoridades deste sistema preocupam-se excessivamente com o crescimento econômico e com o emprego, porque é daí que os impostos vêm para a redistribuição. Receitas fiscais, no entanto, nunca são suficientes para financiar os gastos e, portanto, o moderno capitalismo de estado precisa do financiamento pela dívida. A crise da atualidade é uma crise profunda que mostra que o capitalismo de estado não pode sobreviver porque o limite de endividamento já foi alcançado. Com a dívida no teto, o capitalismo de estado perde a capacidade de suborno e vê a fonte de sua legitimidade evaporar.

A marcha do capitalismo de estado na bancarrota

Depois de comemorar um período exuberante na segunda parte dos anos 90 do século passado, os Estados Unidos começaram a travar duas novas guerras dispendiosas na primeira década do século 21, alimentaram a sua economia com dinheiro muito barato e fizeram grandes empréstimos do exterior. Em 2007 a bolha estourou. Desde então o país ainda está em estagnação com uma divida pública insustentável. Nos Estados Unidos, a política monetária com taxas de juros extremamente baixas levou à bolha do mercado financeiro. A acumulação de dívida se tornou fácil por causa de décadas de uma política monetária expansionista. Durante este período, o setor financeiro alargou a sua ligação com a política e várias instituições financeiras cresceram com a ajuda do governo. O setor público americano cresceu e cada vez mais foi instalado um sistema de “bailouts”, de resgates governamentais para empresas e bancos. Em vez de deixar operar livremente o princípio capitalista que prejuízos servem para eliminar firmas fracas, o governo americano assumiu cada vez mais uma atitude paternalista frente à economia. Um sistema desta forma, onde o lucro é privado e o prejuízo socializado, não é capaz de se manter por muito tempo.

No Japão, que havia caído em estagnação desde o início dos anos 90 e ainda não se recuperou, as autoridades da política econômica continuavam a política monetária e fiscal expansionista. O governo japonês tem um nível de dívida de mais de 200% do seu produto interno bruto. Até recentemente, o Japão podia aliviar os seus problemas econômicos com exportações para os Estados Unidos, mas como o fim da festa consumista americana o Japão já começa registrar déficits no balanço comercial.

Em janeiro de 1999, um grupo de onze países da União Europeia lançou uma moeda comum, o euro, que chegou a 17 membros até agora. A onda de otimismo financeiro que veio com a adoção da moeda comum incentivou a formação de bolhas imobiliárias na Irlanda e Espanha. A Grécia se aproveitou da associação com a união monetária europeia para aumentar as despesas de armamento, Olimpíada, e para a expansão do seu estado de bem-estar e manter um setor público inchado.

A partir de 2010, alguns países do sul europeu foram atingidos por uma grave crise financeira. Desde então a situação piorou sem parar. Em 2012 a crise está chegando ao centro da zona de euro e representa uma ameaça de contágio global.

Dívida governamental de lixo

Quando a crise do mercado financeiro surgiu em 2007, o acesso a empréstimos recuou e além do Japão, também os Estados Unidos e Europa caíram na recessão. Com a atitude paternalista do capitalismo de estado moderno, estes governos recorreram a uma política de gastos enormes como pacotes de estímulo para a economia e socorros para as instituições financeiras e indústrias. Com a atividade econômica a abrandar e se tornar negativa, e com os gastos do governo a aumentarem para níveis sem precedentes, a diferença entre a receita e a despesa aumentou e o endividamento público atingiu os seus atuais níveis insustentáveis nos EUA, na Japão e numa série de países europeus.

Como esta refletido pelas agências de rating, há apenas alguns poucos estados com classificações impecáveis e estes também já estão marcados para rebaixamento. Mesmo a dívida dos Estados Unidos foi já rebaixada. A dívida de Grécia esta classificada como lixo. A atual crise não é apenas uma crise financeira e econômica, a crise é sistêmica no sentido de que a própria essência do sistema de capitalismo de estado tal como ele se desenvolveu durante o século 20 está em xeque. A atual crise fornece fortes evidências que a expansão do moderno estado intervencionista de bem-estar esta além de seu pico. Este tipo de sistema atingiu os seus limites financeiros e não é mais capaz de cumprir sua promessa de proporcionar o bem-estar e a segurança. Com a dívida no teto, o sistema de capitalismo de estado não pode mais expandir e assim esta perdendo a sua capacidade de suborno e como consequência a sua fonte de legitimidade.

Conclusão

Quem vai ganhar e quem vai perder com a crise atual? Enquanto taxas de dívidas de mais de 100% do produto interno bruto frequentemente indicam que o caminho para a bancarrota é irreversível, há proeminentes casos, como Grã-Bretanha depois das Guerras Napoleônicas ou os Estados Unidos, Japão e alguns países na Europa depois da Segunda Guerra Mundial, onde uma mudança radical em direção ao livre mercado não somente evitou a bancarrota, abriu um caminho de prosperidade.

O grande tema do novo século será qual sistema socioeconômico deve substituir o capitalismo de estado da atualidade. Os perdedores serão estes países que procuram continuar com o capitalismo de estado. Para eles o futuro consiste em estagnação, depressão e inflação. Da sua própria natureza, o capitalismo de estado não tem a capacidade de se conter. Impossível de se limitar, o estado expande até que chegue à bancarrota final. Para quebrar o circulo vicioso do capitalismo de estado precisa-se uma profunda mudança de mentalidade.  Os ganhadores do século XXI serão estas nações onde se tem a coragem e a persistência para desmontar o estado intervencionista, minimizar o governo e criar uma economia livre.