O crescimento das grandes empresas e a expansão do governo

por Robert Higgs

A maior parte das pessoas ouve falar da relação entre o crescimento das grandes empresas e a expansão do governo como se fosse um auto de moralidade. Na versão mais difundida, apresentada em quase todos os livros-textos de história americana, o surgimento das grandes empresas (no papel de diabo) teria causado diversos males e abusos — monopolismo, poluição, exploração de trabalhadores etc. Usando um estilo pungente (ainda que não muito escrupuloso quanto aos fatos), Matthew Josephson conta essa história em The Robber Barons [“Os barões do crime”]. As massas também teriam gritado por auxílio e teriam pressionado seus representantes políticos a criar legislações protetoras. Assim, sobretudo em períodos como a Era do Progresso, da Grande Sociedade e do New Deal, surgiu uma profusão de programas governamentais e agências regulatórias, bem como a participação direta do governo na vida econômica (como se fosse a intervenção divina), que serviu para proteger o povo do efeito supostamente esmagador do brutal capitalismo laissez-faire.

Uma história concorrente, popular entre muitos libertários e alguns radicais de esquerda, diz que o crescimento das grandes empresas levou diretamente a empreendimentos satânicos. Essa versão afirma que os grandes empresários, por mais virtuosos que tenham sido no começo, tiveram problemas por causa da forte competição entre as grandes empresas emergentes. A fim de suprimir esse fenômeno incômodo e devorador de lucros, eles usaram diabolicamente sua riqueza para influenciar ou subornar os legisladores, para que criassem programas governamentais, agências regulatórias etc., permitindo que, na prática, o poder coercivo do governo fosse posto a serviço de seus cartéis, da supressão da competição, e da manutenção de lucros excessivos. A exposição clássica dessa interpretação está em The Triumph of Conservatism “O triunfo do conservadorismo”, de Gabriel Kolko.

Infelizmente, ainda que essas histórias de moralidade contenham migalhas, ou até fatias inteiras da verdade, todos eles deixam de fora dados relevantes. Em suma, a realidade foi muito mais complexa do que sugerem essas interpretações. É difícil ler livros com pesquisas profundas como Businessmen and Reform “Empresários e reformas”, de Robert H. Wiebe, Affairs of State “Questões de Estado” de Morton Keller, e The Corporate Reconstruction of American Capitalism, 1890-1916 “A reconstrução corporativa do capitalismo americano de 1890 a 1916”, e continuar agarrado a uma interpretação simples da relação entre o crescimento das grandes empresas e a expansão do governo.

Parte da dificuldade vem da vasta complexidade da economia americana. Apareceu uma multidão de grupos de interesse organizados para fazer lobby nos vários níveis do governo. Ainda que, no geral, o governo federal tenha se tornado cada vez mais pesado no intervencionismo, os estados e as metrópoles continuaram a ter papéis importantes — por exemplo, o socialismo mais escancarado dos EUA surgiu no nível municipal, sobretudo no que diz respeito às chamadas utilidades públicas, como a eletricidade e a produção de combustível, e o transporte coletivo, como o serviço de bondes.

Nenhum estudioso sério nega que os empresários tiveram papéis importantes na criação do Estado intervencionista. “Mas quem”, pergunta Wiebe, “são os empresários? Às vezes eles parecem ser um punhado de homens particularmente ricos e poderosos [Murray Rothbard enfatizava especialmente alguns chefões do “circuito Morgan”]. Em outros momentos, a comunidade teria incluído todo mundo, do presidente da U.S. Steel ao padeiro da esquina, sem que se explique como seus pensamentos e ações diferem, se é que diferem”. Wiebe se impressiona mais com as diferenças e rivalidades dos empresários do que com seus pontos de concordância. Por exemplo, os grandes banqueiros de Nova York, apesar de sua óbvia influência, sempre tinham disputas com outros banqueiros em grandes centros financeiros como Chicago, Boston, Filadélfia, St. Louis e São Francisco, que não apreciavam ficar na sombra dos titãs de Wall Street — e isso foi uma razão (entre várias) para o Federal Reserve Act, de 1913, ter criado não um único banco central, mas doze bancos regionais.

Wiebe conclui: “Entre as figuras proeminentes nos movimentos em prol de uma economia regulada, havia empresários e fazendeiros em busca de lucros maiores, políticos em busca de uma causa, jornalistas em busca de uma história, uma nova classe de especialistas econômicos e administrativos que buscavam utilizar seu conhecimento, e religiosos que queriam restabelecer a moralidade nos Estados Unidos industriais”.

Em grande parte, o que tornou a questão das grandes empresas tão relevante do ponto de vista político ao fim do século XIX e no início do XX não foi tanto o tamanho cada vez maior das principais empresas, mas o surgimento de um mercado nacional (isto é, interestadual), estimulado pelo desenvolvimento de novas tecnologias de transporte e comunicação, especialmente as estradas de ferro (descritas, aliás, como “o primeiro grande negócio”) e o telégrafo. Quando o escopo dos negócios era local ou pelo menos predominantemente interestadual para quase todas as empresas, a ação do governo em relação a elas acontecia primariamente na esfera local ou estadual. Quando o mercado nacional começou a caracterizar cada vez mais atividades empresariais, as relações estabelecidas entre governo e empresas ficaram instáveis e começaram a corroer-se.

As corporações gigantes, que em muitos casos tinham crescido para poder explorar novas tecnologias e estruturas organizacionais que ofereciam economias de escala e escopo, passaram a competir cada vez mais com a multidão de empresas menores que antes servia a mercados locais ou regionais fragmentados. As empresas ameaçadas pelos grandes vendedores interestaduais procuraram proteger-se apelando a seus governos locais e estaduais. Por essa razão, entre outras, intervenções locais e estaduais nas relações de mercado cresceram notavelmente no fim do século XIX. A mobilidade potencial e atual das empresas, porém, ajudou a conter essas intervenções, porque as empresas mais severamente ameaçadas simplesmente deixavam sua jurisdição.

Ao mesmo tempo, os donos das grandes empresas, assediados por dezenas de governos estaduais, com seus gananciosos políticos, começaram a enxergar a sabedoria da regulamentação federal. Talvez, pensaram, pudessem ter mais chance de fugir de regulamentações intrusivas, custosas e mutáveis nos níveis local e estadual se lidassem apenas com um único corpo regulamentador em nível nacional. Essa agência também poderia ser usada para manter a competição interestadual das grandes empresas sob controle, garantindo assim suas receitas.

À medida em que tanto grandes quanto pequenos empresários se organizavam e faziam pressão por intervenções governamentais, outros grupos, defensivos ou ofensivos, foram se juntando à barafunda: associações agropecuárias, trabalhistas e acadêmicas formaram-se e buscaram medidas mais fortes do governo. A ideologia dominante do século XIX, uma versão particularmente americana do laissez-faire, parecia cada vez menos capaz de impedir que as vantagens econômicas fossem obtidas pelo aumento do poder governamental.

Como os movimentos políticos e ideológicos se desenvolvem reciprocamente, as reações ubíquas ao crescimento das grandes empresas no início do século XX provocaram não só uma proliferação de novos grupos de interesse organizados que buscavam proteção governamental para posições ameaçadas, como também levou os intelectuais, tanto os independentes quanto os comprometidos, a desenvolver novas justificativas para um governo mais ativo. Assim, o progressismo enquanto ideologia desenvolveu-se junto com o progressismo enquanto prática político-econômica; cada aspecto reflete as oportunidades e riscos socioeconômicos do momento, criados pelo crescimento das grandes empresas e por suas repercussões na economia.