O desafio dos liberais brasileiros

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Nunca houve melhor época para a defesa dos ideais liberais no Brasil. Organizações, eventos, publicações e debates espalham sementes de uma versão liberal das noções de história e economia que a maioria de nós foi ensinada em anos de educação formal. O processo de germinação dessas ideias é longo e trabalhoso, mas é urgente. O Brasil precisa ouvir ideias diferentes. Ideias que entreguem menos esperanças sobre a vontade política dos eleitos da ocasião e mais na ação de indivíduos livres. Mas o brasileiro, no entanto, ainda parece dependente e confiante no estado, mesmo que este viva a lhe decepcionar. Falar em resiliência parece abstrato demais para quem espera ajuda. Falar em abertura de mercados e trocas voluntárias e pacíficas com estrangeiros parece distante demais para um país ainda relativamente fechado e protecionista. O desafio dos liberais brasileiros no início do século XXI é imenso.

Em entrevista concedida há duas semanas para o programa Colbert Report, o pré-candidato do Partido Libertário à presidência dos Estados Unidos, Gary Johnson, justificou a sua motivação para disputar as eleições desse ano com pesquisas que sugeririam que a maioria da população americana se classifica como responsável nas questões tributárias e liberal nas questões sociais. No Brasil atual, a justificativa para o engajamento dos liberais no debate público é bem diferente daquela apresentada por Johnson nos EUA: nós precisamos debater porque uma parcela razoável de brasileiros desconhece ou rejeita as nossas ideias.

Uma pesquisa realizada no final do ano passado, encomendada pelo Partido Social Democrático (PSD), revelou que a maioria dos brasileiros deseja a manutenção das intervenções governamentais na economia, e prefere que o modelo econômico do país permaneça intervencionista. Em relação às liberdades civis, embora a maioria aprove o reconhecimento das uniões homoafetivas, três quartos da população são contrários à legalização das drogas. Para 32% dos pesquisados, a maioridade penal deve ser reduzida para 12 anos e 52% acredita que o Brasil deveria instituir a pena de morte. Se fosse submetida a um modelo de classificação baseado no Diagrama de Nolan, é provável que a média das opiniões dos brasileiros ficasse no quadrante oposto ao dos liberais.

Mas o retrato do brasileiro que emerge dessa pesquisa é, sobretudo, confuso. Para a maioria, a vida financeira melhorou e o futuro deve ser ainda melhor. Os brasileiros querem ter o próprio negócio, dizem os impostos estão altos e reconhecem a ineficiência do governo ao prover serviços básicos. Apesar disso, 32% dos entrevistados acreditam que o governo administraria melhor as empresas do que o setor privado. Um terço da população preferiria ver o governo no comando das empresas! O mesmo governo que cobra impostos demais e que presta um serviço de saúde ruim ou péssimo para 45% dos entrevistados. Perguntados sobre a segurança pública, apenas 20% dos entrevistados respondeu que o governo faz um bom trabalho. Afinal, nós brasileiros rejeitamos abordagens as alternativas aos serviços governamentais ou simplesmente desconhecemos a sua existência? Ou será que os participantes apenas responderam perguntas avulsas, sem notar a conexão entre os temas?

Apesar da maioria dos entrevistados (62%) ver a abertura de um negócio próprio como o futuro mais desejável para a sua vida profissional – 26% prefere um emprego público –, a ideia de um país aberto e de um mercado mais livre não parece popular entre os pesquisados. 64% dos entrevistados acredita que o Brasil deve restringir a entrada de produtos estrangeiros. 56% acredita que o governo deveria restringir a entrada de trabalhadores estrangeiros no país. Apesar da pergunta não aparecer na pesquisa, é pouco provável que encontraríamos a mesma rejeição à exportação de produtos brasileiros ou à presença de brasileiros trabalhando no exterior.

A ideia de que importações são negativas e exportações são positivas parece entranhada no imaginário da população, que advoga barreiras que a penalizam diretamente. Quando um especialista estrangeiro é impedido de trabalhar no país, a capacidade de inovar das empresas instaladas em solo nacional é prejudicada. Sem inovar, não podem competir com empresas estrangeiras. E sem poder competir, precisam fazer lobby pela imposição de barreiras comerciais. Muitas vezes, utilizam recursos retóricos que nos remetem às batalhas bélicas: nosso território está sendo invadido, nosso mercado está sendo tomado, nosso parque industrial está sendo destruído. Quando um produto importado é impedido de entrar no país, o governo concede aos fabricantes nacionais uma sobrevida artificial no mercado para seus produtos – aqueles mesmos que tinham sido trocados pelos importados e que ninguém escolheria senão à força. Para os brasileiros, cuja maioria é favorável às restrições, sobram tarifas que sustentam empresários e produtos mais caros e/ou de menor qualidade.

Há muito espaço a ser conquistado pelos defensores do livre mercado no debate público brasileiro. Mas os números dessa pesquisa mostram que o combate será duro e que partimos de uma condição desfavorável, mesmo tendo os fatos do nosso lado.

Por ora, a maioria dos brasileiros parece desejar a manutenção do quadro atual: uma economia fechada, um capitalismo administrado pelo estado, que sobrevive apesar das interferências. A tarefa dos liberais continua a ser enorme, mesmo com todos os avanços dos últimos anos. A população deseja empreender, deseja prosperar, deseja ser mais livre. Cabe a nós lembra-la que o caminho mais curto para a liberdade é uma sociedade cujo governo possui poderes limitados e indivíduos são livres para fazerem as suas próprias escolhas.

* Publicado originalmente em 20/04/2012.