O fim do euro

“The european single currency is bound to fail, economically, politically, and indeed socially, though the timing, occasion, and full consequences are all necessarily still unclear.” (Margaret Thatcher)

Poucas pessoas hoje insistiriam que o euro foi um bom projeto. À época de seu lançamento, porém, poucos foram os que adotaram o papel de Cassandra, alertando para os enormes perigos que ele representava. Thatcher foi uma dessas pessoas. Milton Friedman foi outra. Mas o grau de otimismo com o ousado plano de unificação da Europa, que começaria pela moeda comum, era tão grande que contagiou quase todos.

Eis que agora chegamos nesta calamitosa situação, em que um país com economia insignificante como a Grécia ameaça implodir todo o modelo. É verdade que a Grécia está longe de ser o único problema na união. Portugal, Espanha, Itália e mesmo a França apresentam indicadores insustentáveis. Mas basta um minúsculo país como a Grécia piscar e sair do euro para desencadear um processo de contágio devastador, como um castelo de cartas desmoronando.

Eu tenho lido vários livros sobre o euro, e um deles merece menção por seu poder de concisão: The End of the Euro, de Johan van Overtveldt. Ele consegue resumir de forma bastante sucinta as principais causas pelas quais o projeto é insustentável. No afã de forçarem um casamento entre figuras tão desiguais, os defensores do euro vão acabar criando uma separação litigiosa. De fato, as tensões aumentaram, o tom nacionalista já domina a cena, e o ressentimento mútuo é geral, com cada um apontando o dedo e culpando o vizinho pelos problemas.

O bode expiatório preferido, entretanto, continua sendo o “mercado”. Isso fez com que as autoridades envolvidas vivessem uma fase duradoura de negação da profundidade do problema, que ainda persiste em alguns lugares. Até mesmo o ministro das Finanças alemão, Wolfgang Schäuble, chegou a afirmar que os mercados financeiros não compreendem o euro. Christine Lagarde, hoje no FMI, declarou que a Europa é difícil de ser entendida pelos mercados, quando era ministra de Finanças da França. A solução proposta com base no diagnóstico absurdo de que a culpa estava nos mercados foi restaurar a primazia da política sobre as finanças especulativas.

O que esses políticos talvez ignorem é que boa parte dos problemas do euro existe justamente porque ele foi um projeto político, e não econômico. Apavorados com a reunificação alemã e com seu renomado banco central, as elites europeias, lideradas pelos franceses, decidiram criar o euro para conter o poderio da Alemanha. Delegando o poder a Bruxelas, seria mais fácil domar os alemães. A dominância do Bundesbank seria restringida.

Se a economia francesa não tinha mais como oferecer rivalidade à altura da alemã, então a solução para manter o prestígio e a influência da França seria pela via política. A cartada usada para convencer os demais seria a ameaça de guerra caso os países seguissem isolados. Assim foram colocadas as alternativas na mesa: o euro e a paz ou então a volta do clima de guerra tão comum na Europa. Restou explicar porque mais integração dependia de uma moeda comum entre países tão díspares.

Esta elite de pais fundadores do euro sabia inclusive dos riscos de crises econômicas com este passo, mas pensavam que tais crises seriam positivas ou até necessárias para mais progresso rumo à unificação total dos países, na criação daquilo que seriam os Estados Unidos da Europa. Restava combinar com os milhões de cidadãos que ainda viam, na nação, mais sentido do que na visão dos tecnocratas de Bruxelas. Não se muda a cultura de um povo por decreto estatal. O resultado está aí: o retorno do discurso nacionalista e o risco inclusive de vitória de partidos extremistas nos países mais afetados. O euro e a democracia, para povos tão diferentes, parecem não combinar muito.

Segundo o autor, esta crise vai se arrastar até que uma das duas coisas ocorra: 1) a União Europeia se torne uma completa união política e fiscal; 2) o modelo atual desmorone com o fim do euro. Isso poderia ser precipitado ou pela desistência de um país periférico, como a Grécia, por conta da fadiga da austeridade, ou pela Alemanha cansando de transferir recursos para países que se negam a reformar. De onde viria o tiro de misericórdia é difícil dizer. Mas o que é possível afirmar com mais convicção é que cada dia joga contra a integração forçada, pois as divergências econômicas apenas aumentam e o grau de antagonismo cresce junto.

Para uma área monetária comum funcionar a contento, algumas características se fazem necessárias, entre elas: mobilidade dos fatores de produção, especialmente o trabalho; flexibilidade de preços e salários; taxas similares de inflação; grau razoável de abertura econômica e de diversificação; integração financeira, política e fiscal. Os Estados Unidos conseguem manter sua moeda comum porque apresentam tais condições. Mas nada parecido existe na Europa. Ignorar este “detalhe” e partir para a união monetária mesmo assim foi um erro grosseiro no passado, cujo preço está sendo pago somente hoje.

Alguém acredita que é possível transformar a Grécia, Portugal e Espanha em economias competitivas como a alemã em poucos anos? Eu diria que nem mesmo em décadas isso é provável. Portanto, insistir no euro significaria criar um mecanismo permanente de transferência de recursos da Alemanha para o restante, algo que dificilmente seria aceito pelos alemães. Além disso, cada nova rodada de estresse na periferia, por conta das duras reformas de austeridade impostas pelo pacto fiscal, representa a chance de vitória de um partido populista que ameaça jogar tudo para o alto.

Atentos a isso, muitos passaram a falar em voltar o foco para o crescimento, e não para a austeridade. Mas o que isso quer dizer na linguagem deles é aumentar gastos públicos e contratar funcionários públicos, e não reformar as leis trabalhistas anacrônicas. Não há como isso resolver os problemas estruturais da região, endividada até o pescoço. E a Alemanha, cada vez mais isolada, terá um limite em relação a esta situação. Como disse Herbert Stein, “se alguma coisa é insustentável, ela vai parar”.

Como conclui o autor, a Europa não fez nada realmente substancial para atacar os problemas estruturais do euro desde o começo da crise. O setor bancário não está capitalizado como deveria, as reformas não resolvem a questão das divergências de competitividade, e tudo depende cada vez mais do Banco Central Europeu abrindo a torneira para ganhar tempo. Só que o tempo, neste caso, não tem ajudado. Ao contrário: ele expõe as discrepâncias que cada vez aumentam mais. Os europeus estão ficando sem tempo. Ou, como alerta Overtveldt, talvez o tempo já tenha mesmo se esgotado.