O futebol e a ordem espontânea

por Stephen Davies

Um dos mais profundos e difíceis insights do pensamento econômico é que a livre associação pode produzir instituições complexas e orientadas por regras, e ordens sociais que nenhuma pessoa ou pequeno grupo planejou sozinho. Os esportes profissionais são uma dramática ilustração disso.

Hoje os esportes profissionais são um negócio importante e um fenômeno social de peso. São um elemento básico das conversas descontraídas, um tópico sobre o qual a maior parte das pessoas tem opiniões (mesmo a opinião seja simplesmente que odeiam esportes), e uma grande parte de mídias impressas e da televisão. A final do campeonato nacional de futebol americano, conhecida como Super Bowl, é o programa mais assistido dos Estados Unidos, e a Copa do Mundo de Futebol e as Olimpíadas atraem uma audiência verdadeiramente global. Há muitos tipos de esportes organizados competitivos, e não menos que sete variedades amplamente difundidas de futebol, por exemplo. A maior parte destas têm instituições formais que as governam e elaboram normas tanto para o jogo quanto para a solução de conflitos. Existe até mesmo uma “corte mundial” desportiva, o Tribunal Arbitral do Esporte, em Lausanne. Em geral, os esportes têm uma linguagem técnica complexa, que é, com frequência, impenetrável para alguém que não tenha familiaridade com o jogo em questão – conforme descobriram várias gerações de ingleses ao tentar explicar o críquete para estrangeiros perplexos.

Esse amplo leque de práticas, instituições e regras é em geral tido por certo: poucos se perguntam como surgiu. A história, porém, é fascinante. Embora certamente tenha havido ação premeditada, e muitas normas e instituições tenham sido criadas conscientemente, os esportes organizados não são casos de simples planejamento central.

Tome por exemplo as variações do futebol. Na Idade Média, na maior parte da Europa havia um jogo que era geralmente chamado de “futebol”; era jogado nos principais dias de festa, como o Entrudo. Tipicamente não havia restrições ao número de jogadores de cada lado ou ao que se podia fazer com a bola; o objetivo era conseguir que esta atravessasse uma linha acordada. Os eventos eram com frequência extremamente violentos e mais próximos do que chamaríamos de uma confusão do que um evento esportivo. Algumas variantes tinham regras mais precisas, como o Calcio Fiorentino em Florença. De maneira geral, cada localidade ou pequena região tinha sua própria variante, e não havia um código de normas aplicável a uma grande área.

Ocorreu então uma inovação crucial na Inglaterra. Do século XVI em diante, passou-se a jogar nas escolas uma forma mais organizada do jogo, com números específicos de jogadores de cada lado e regras mais elaboradas. Estas evoluíram no princípio informalmente, de caso em caso, mas eventualmente foram compiladas e documentadas. Então, em 1845, a famosa escola de Rugby solicitou a três de seus pupilos codificassem as regras da variedade de futebol lá praticada. Em geral, nos séculos XVIII e XIX cada escola tinha seu próprio conjunto de regras. Nesse período, porém, duas outras coisas começaram a acontecer. Primeiro, mais e mais clubes desportivos se formaram para jogar variedade de futebol regularmente fora de instituições acadêmicas. Estes eram simplesmente associações livres. Novamente, em geral cada uma tinha seu conjunto de regras.

Em segundo lugar, quanto estradas e ferrovias diminuíram o custo do transporte, os jogos eram arranjados entre diferentes escolas e clubes. Mas cada lado tinha suas próprias regras. As partidas podiam ser jogadas segundo um dos conjuntos de regras, mas isso eram insatisfatório para jogos mais do que ocasionais. Então, de forma espontânea, ad hoc e local, duas soluções surgiam. A primeira era que todos os times envolvidos concordassem em usar as regras de uma escola ou clube externo. Assim as regras produzidas pela escola de Rugby foram amplamente adotadas, levando ao surgimento do rúgbi.

A segunda solução era que um grupo de times se reunissem e concordassem voluntariamente em um conjunto de regras comuns, no que se poderia chamar de um “contrato desportivo”. Isso aconteceu no caso do futebol (no sentido mais usado em português, o “futebol de associação”).

Veio em seguida a competição entre as regras (os “códigos”). Quanto mais times concordavam em adotar um determinado conjunto de regras, mais incentivo havia para que outros o fizessem, pois isso aumentava o espaço de possíveis competidores. Por outro lado, como o conteúdo preciso de qualquer conjunto de regras produziria um tipo específico de jogo, alguns preferiam um conjunto a outro. Então as regras de alguns clubes ou escolas se tornaram amplamente adotadas, e outras nunca se popularizaram. Ao mesmo tempo, a variação entre diferentes códigos levou a maior diferenciação e eventualmente à clara emergência de vários tipos de futebol.

O próximo estágio da evolução foi a formação de ligas nacionais ou (como nos Estados Unidos) regionais, nas quais os clubes concordavam em disputar uns com os outros em competições organizadas. Isso, por sua vez, levou ao aparecimento de uma organização permanente, tanto para organizar a competição quanto para definir e aplicar as regras comuns. Em seguida, formaram-se corpos normativos internacionais, como a FIFA em 1904. Todos eles foram criados não por governos, mas pela livre associação entre os clubes e associações desportivas que concordavam em ser governados pelo órgão que haviam estabelecido.

Jogos de raquete também

O mesmo tipo de história pode ser narrado para outros esportes, incluindo jogos de raquete, hóquei em ambas as suas principais formas, e críquete. O desenvolvimento de cada um desses compartilha alguns aspectos interessantes: foi espontâneo, não premeditado, e ocorreu de baixo para cima, com grandes e complexas organizações produzidas pela livre associação e concordância – e com a opção de secessão. Houve uma competição entre diferentes sistemas de regras. Em muitos casos, organizações ou empreendedores específicos desempenharam um papel crucial. Assim, o futebol americano surgiu em grande parte por causa das inovações do técnico de Yale Walter Karp. Inovação nas regras dos jogos, na sua estrutura organizacional, e as táticas empregadas dentro dessas regras vêm sendo uma presença constante. Um dos fenômenos mais impressionantes é a forma como mudanças nas regras podem ter efeitos dramáticos e inesperados. Assim, a introdução do passe para a frente no futebol americano em 1906 levou a uma mudança radical na natureza do esporte, que não fora prevista ou pretendida quando a mudança foi introduzida.

O esporte é uma parte importante da vida de muitas pessoas hoje em dia, em todo o mundo, e um fenômeno social significativo. É talvez o maior exemplo de uma ordem social baseada em e produzida por processos livres e espontâneos. Será surpreendente que, de maneira geral, o esporte hoje seja bem melhor governado do que a política?

 

Publicado originalmente em The Freeman.