O jabá é mesmo crime?

Os escândalos envolvendo o pagamento de jabá nos Estados Unidos constituíram um episódio dramático no choque dos mundos musicais. Gravadoras independentes freqüentemente usavam o jabá para promover o rock ‘n roll nas rádios americanas. O jabá ocorre quando um DJ recebe um pagamento de uma gravadora ou de um artista para tocar certas músicas. Essa prática, normalmente considerada escandalosa, na verdade ajuda muitos músicos a conseguir tempo de programação na rádio. O jabá ajudou a combater o racismo na indústria musical. Apesar disso, os oponentes do rock ‘n roll conseguiram dar ao jabá uma conotação negativa, como se fosse propina ou lavagem de dinheiro.

As primeiras instâncias documentadas de jabá datam da Inglaterra dos anos 1860. Os compositores pagavam aos intérpretes teatrais para cantarem e popularizarem suas músicas. O pagamento dessas taxas era um procedimento de marketing normal para os compositores e uma fonte de renda importante para os intérpretes. O jabá não era motivo escândalos políticos. Antes dos escândalos recentes, o jabá era uma prática legalmente aceita e usada para promover novos produtos por décadas. No caso do rhythm and blues (R&B), as gravadoras independentes não possuíam poder de marketing ou reputação suficiente para colocar seus artistas na rádio com base somente em seu nome, e eram forçadas a pagar o jabá.

A música “Maybellene”, de Chuck Berry, seu primeiro hit e ainda um de seus maiores sucessos, foi ao ar inicialmente por causa do jabá. Leonard Chess, da Chess Records (a gravadora de Chuck Berry), foi até o famoso DJ Alan Freed com um vasto catálogo de material. Chess ofereceu a Freed créditos parciais pela composição de qualquer música que ele escolhesse, desde que ele tocasse e promovesse a música na rádio. Depois de ouvir a centenas de gravações, Freed escolheu "Maybellene". Chuck Berry alcançou o estrelato, e o patrimônio de Freed continua a receber os royalties. Quando as gravadoras acreditavam que uma composição de um artista desconhecido se tornaria um sucesso, elas usavam o jabá para pagar pelo tempo da programação.

O jabá não é diferente da mera compra de tempo de propaganda. Em vez de ouvirmos um jingle comercial, nós ouvimos uma música. Faz-se assim propaganda do intérprete e da própria música. A criminalização do jabá impede que as estações de rádio façam propaganda de música, o produto de maior interesse da sua audiências.

O jabá também enconrajou os DJs, os profissionais que mais sabem de música, a descobrirem novos talentos. Os donos da estação não eram tão bem informados quanto os DJs e não tinham os mesmos contatos no mundo musical, especialmente com a indústria do rock. A proliferação de gravadoras independentes dificultou a busca por novas estrelas, aumentando a importância do DJ como um intermediário. Se um DJ encontrava uma nova estrela, o DJ receberia alguns dos benefícios na forma do recebimento de jabá.

A receita do jabá diminuía o favoritismo do DJ e a discriminação racial. Quando mais os DJs recebem uma renda extra para tocar os seus produtos mais populares, menos eles estão dispostos a favorecer seus próprios preconceitos raciais e pessoais e mais inclinados eles estão a atender a vontade dos consumidores. O valor de incluir certa música na programação, isto é, seu valor de jabá, é normalmente mais alto do que o de promover uma música ruim. As gravadoras não estavam interessadas em pagar pela canções que prometiam fracassar.

Os críticos do jabá argumentam (corretamente) que, nos Estados Unidos, o jabá dava um incentivo especial para a música rock. A criminalização do jabá aumenta a importância dos comerciais como fonte de renda das rádios. Sem o jabá, as estações passam a tocar a música que atrai ouvintes das classes médias e altas, os principais consumidores dos produtos anunciados. Quando o jabá é legal, o desejo de aumentar a receita do jabá estimula as estações a atraírem ouvintes que vão comprar discos. O jabá dá aos consumidores de música, os jovens, os fãs de música, uma influência maior sobre a programação da rádio.