O livre comércio nos deu mais do que produtos

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por Daniel Griswold

Em qualquer canal de TV, estação de rádio ou blog americanos, você logo vai ser bombardeado com a mensagem de que o livre comércio está destruindo os Estados Unidos. Segundo os populistas econômicos da esquerda e da direita, os salários, empregos e futuros dos americanos de classe média estão sendo diariamente sacrificados aos deuses da globalização.

No comércio, como em tantas outras áreas, os populistas novamente estão errados. O livre comércio e a globalização são grandes bênçãos para as famílias americanas. O comércio proporciona preços menores e mais variedade aos consumidores, especialmente os pobres, enquanto cria, ao mesmo tempo, empregos mais bem remunerados para o americano comum. Além das fronteiras americanas, a disseminação da abertura econômica está consolidando um mundo mais humano, democrático e pacífico para nossos filhos.

Agora pode parecer um momento estranho para cantar os benefícios do comércio para os Estados Unidos. Afinal, o desemprego se aproxima dos 10%, as manufaturas estão em crise, e a pobreza global está em alta. Mas todos esses efeitos são resultado da recessão recente, uma virada causada não pelo comércio, mas por políticas monetárias e de habitação criadas nos Estados Unidos.

Em tempos de dificuldades econômicas, a competição das importações permite às famílias americanas que se mantenham em relativa segurança, provendo necessidades básicas como comida, roupas e sapatos a preços menores. Os preços que pagamos pelos bens expostos à competição global tendem a subir mais devagar do que a inflação, ou até cair. Só o aumento da variedade de produtos trazido pelo comércio internacional já proporciona benefícios de US$400 bilhões por ano para as famílias americanas devido ao aumento da satisfação do consumidor, segundo um estudo de 2004 de autoria de Christian Broda e David E. Weinstein para o National Bureau of Economic Research.

Os consumidores que proporcionalmente mais se beneficiam do comércio internacional são os pobres, também os que mais sofrem com as barreiras existentes. Os vegetais, frutas, camisetas e tênis com desconto importados à venda nas grandes lojas avultam ainda mais nos orçamentos das famílias pobres e de classe média.

Perversamente, as mais altas barreiras comerciais restantes nos Estados Unidos têm como alvo produtos que são, mais do que outros, fabricados por pessoas pobres no exterior e consumidos por americanos pobres. Os US$25 bilhões que o governo americano arrecada a cada ano através de tarifas de importação é o tributo mais regressivo do arsenal federal. Segundo um estudo do Progressive Policy Institute, uma mãe solteira que ganhe US$20.000 por ano paga uma parcela muito maior de sua renda em taxas de importação do que um administrador que ganhe US$100.000 por ano. Sindicatos e outros grupos que lutam contra acordos comerciais de redução das tarifas corroboram sem saber um status quo que castiga os pobres.

Apesar do que nos dizem os populistas, os benefícios do comércio internacional para o consumidor não vêm às custas de empregos ou salários. Como candidato à presidência em 2007, Barack Obama soou como o âncora e editor Lou Dobbs, da CNN, ao dizer a uma multidão entusiasmada em Chicago que importar camisetas baratas de países em desenvolvimento não compensava os empregos perdidos. "As pessoas não querem uma camiseta mais barata se vão perder um emprego para isso", disse ele. "Elas preferem ter emprego e pagar um pouco mais por uma camiseta."

Como a maioria dos políticos, Obama preferiu representar um pequeno mas barulhento grupo de interesses especiais, às custas da grande maioria dos americanos. Somente cerca de 0,3% dos trabalhadores americanos estão envolvidos na fabricação de roupas ou têxteis, comparados a praticamente 100% dos americanos que compram e usam camisetas e outras roupas. Se os americanos são forçados a pagar mais caro por causa das restrições de importação, um pequeno número de empregos é "salvo", mas o custo para as famílias de trabalhadores é enorme.

Considerando toda a economia americana, o comércio internacional é responsável por uma pequena parcela das demissões. Para cada trabalhador demitido por causa do comércio internacional ou de terceirizações, outros 30 trabalhadores americanos perdem seus empregos por causa de outros fatores — geralmente mudanças tecnológicas, mas também competição doméstica e mudanças nos hábitos dos consumidores. Lembre-se dos 30.000 trabalhadores na Kodak que foram demitidos ao longo dos últimos cinco anos, não por causa de importações, mas por causa da popularidade das câmeras digitais e da enorme queda nas vendas de filmes fotográficos. Os jornais, minha ex-vocação, vêm sofrendo uma hemorragia de empregos desde 2001, não por causa de injustiças comerciais, mas por causa de classificados online e de mudanças nos hábitos dos leitores. Um certo "nomadismo" nos empregos é natural em uma economia dinâmica e aberta.

Uma grande mentira no debate sobre o comércio internacional é a de que teríamos vindo trocando empregos de classe média na manufatura por empregos de baixa remuneração no setor de serviços. Desde o início dos anos 1990, a economia americana perdeu mais de 3 milhões de empregos na manufatura, mas nesse mesmo período ganhou 18 milhões de empregos no setor de serviços, com remuneração em geral mais alta. Na verdade, desde 1991 dois terços dos novos empregos criados na economia americana foram em setores como saúde, educação, negócios e serviços profissionais, nos quais paga-se em média mais do que na manufatura.

A classe média americana de hoje ganha seu pão com empregos nos serviços, com pagamento melhor. Visite as casas em uma típica vizinhança de classe média americana e você encontrará professores, administradores, carpinteiros, arquitetos, engenheiros, analistas de sistemas, caminhoneiros, contadores e auditores, policiais e bombeiros, corretores de seguros e de imóveis, enfermeiras e outros profissionais de saúde, e autônomos com seu próprio negócio.

No exterior, a queda dos entraves comerciais e a disseminação da tecnologia criaram um mundo mais pacífico, democrático e próspero. Novamente, isto pode parecer um argumento contraintuitivo diante das manchetes diárias sobre a recessão global e a violência contínua no Oriente Médio e na África, mas neste ponto é preciso, de novo, dar um passo para trás e avaliar as tendências de longo prazo.

As últimas três décadas de expansão do comércio e globalização foram cenário de um progresso global dramático. Entre 1981 e 2005, a parcela da população mundial que sobrevivia com o equivalente a US$1,25 por dia caiu pela metade, de 52% para 25%, segundo o Banco Mundial. Só na China, a cifra da pobreza absoluta caiu em 600 milhões. Durante o mesmo período, ganhos reais foram obtidos na expectativa de vida, na sobrevivência infantil, na nutrição e no letramento. As taxas de trabalho infantil caíram para menos da metade. Não é coincidência que os mais radicais avanços contra a pobreza tenham ocorrido nos países que fizeram as aberturas mais agressivas à economia global.

Ao mesmo tempo, conforme emergia uma classe média global, emergiram também formas mais democráticas de governo. O comércio internacional disseminou as ferramentas de comunicação e estimulou o crescimento da sociedade civil como alternativa ao governo centralizado. Como resultado, a parcela da população mundial vivendo em países que respeitam as liberdades civis e o direito de voto aumentou de 35% em 1973 para 46% hoje, segundo a Freedom House.

Menos pessoas morrem em guerras hoje do que no passado, em grande parte porque o comércio substituiu a competição militar. O comércio global permitiu às nações ter acesso a recursos através da compra em vez da conquista, e a integração econômica mais profunda uniu velhos inimigos e aumentou o custo da guerra. Mesmo com os conflitos em curso no Iraque e no Afeganistão, os jovens adultos americanos de hoje têm bem menos chance de lutar e morrer em guerras do que os dos anos 1940, 1950 e 1960.

Os Estados Unidos e o mundo deparam-se hoje com intimidantes tarefas, como se depararam as gerações passadas; mas a expansão do comércio é parte da solução, e não do problema. Os americanos deveriam ter pelo livre comércio e a globalização o mesmo afeto que têm por seus iPods, pelo correio eletrônico, pelas compras pela internet, por uma criança bem-alimentada a caminho da escola, ou pela paz mundial.

* Publicado originalmente em 13/10/2009.