O menino do pijama listrado, as estatísticas e a maldade humana

O gatilho desse artigo foi o filme O Menino do Pijama Listrado. O resto, livre associação de ideias. Tudo veio à cabeça desordenadamente.

Como é diferente a morte de dois meninos, apesar de as estatísticas nos contarem de 6.000.000 de mortes de judeus no Holocausto, ou de 110.000 pessoas na guerra do Iraque. A diferença é que, fulanizada, a maldade é mais chocante. Estatísticas ofuscam a profundidade da maldade humana.

Quantas pessoas choraram vendo Quem quer ser um milionário? Afora o massacre inicial dos muçulmanos na favela de Mumbai, o resto não difere em nada do Orfeu de Cacá Diegues. Fui ver e fiquei deprimido mais de 2 semanas. Cacá botou a lente de aumento na favela do Morro de Dona Marta (no Rio de Janeiro). Não tinha nada para ser chocante. Trabalhei 6 anos numa rua que dava acesso a ela. Cinco vezes por semana eu a via. Se quisesse entrar nela ou pegá-la, era só não tomar o ônibus e caminhar mais 150 metros. Nunca o fiz. Tinha visto favela por dentro na versão de filho de professora na Favela do Salgueiro e fazendo pesquisa nelas. Mas Cacá não nos poupou da visão com a lente de aumento.

No que diferem todas estas mortes teatralizadas, filmografadas ou fotografadas das estatísticas? Nelas somos confrontados com pessoas reais.

Uma brasileira morreu assassinada em Buenos Aires. A família precisava trazer o corpo. Quanto custa uma fração do que nossos funcionários e parlamentares (pagos com o nosso dinheiro de impostos) gastaram em passagens aéreas para eles e para quem quer que seja?

A entrevista do Cônsul Geral Adjunto do Brasil, Alexandre dos Anzóis Carapuça, foi patética. O consulado “está dando toda a assistência possível...” Menos a essencial: pagar o transporte do corpo!

Minha amiga Aija tem hoje 70 anos. Cidadã americana, ela vive uma confortável vida de aposentada de classe média em Washington. Um dia comentou uma manchete de um jornal americano que reclamava não me lembro de quê: os americanos não sabem o quanto são felizes.

Fulanizou o caso. Contou-me que uma noite, em 1944, saiu de casa com a mãe e dois irmãos menores, fugindo dos russos. Isso foi na Letônia. Lá, os alemães eram os mocinhos. Bandidos eram os russos.

Como entender isso com 6 anos de idade? Vagar pelo norte da Europa em guerra, sem notícias e sem fronteiras? Ver a mãe cavar a terra com as mãos, procurando quaisquer raízes que pudessem ser comidas? Não importa que frias ou cruas. Eram a diferença entre a vida e a morte.

O presidente é o cara e o ministro Celso Amorim é o principal assessor do cara. Custava fazer alguma coisa? Muito pouco. Mas porque não se fez? Porque estas mortes são burocráticas. Não são pessoas que morrem, são casos que ocorrem na "jurisdição" distorcida dos burocratas, incapazes de arredar um milímetro das regras para resolver um problema humano. A sobrevivência na carreira é mais importante.

Muito obrigado, Senhor Cônsul, por não ter passado a mão no telefone para descolar um repatriamento de uma concidadã que ajudou a pagar o seu salário. Ajudou um pouquinho, mas ajudou. A morte também se globalizou, não foi só o crescimento das exportações.

A fama dos consulados brasileiros é triste no que se trata de atender aos concidadãos. Nunca encontrei ninguém que tivesse tratado com nenhum deles e tivesse uma boa história para contar. São sempre horrores, pequenos ou grandes.

Uma vez fui à embaixada do Brasil em Washington. Entrei pela porta da frente. Um modorrento funcionário da portaria na penumbra das 6 da tarde no inverno americano mal levantou os olhos do que quer que estivesse lendo e disse: “A sua porta é lá pelos fundos, na outra rua.”

Lembrei-me de Roberto da Matta e usei o “Você sabe com quem está falando” em versão light, e respondi com uma pergunta: “É aqui que trabalha um moço chamado Marcílio Marques Moreira?” Minha abóbora virou carruagem. O porteiro levantou-se, saiu de trás do balcão, levou-me à porta do elevador, mantendo-a aberta até que eu entrasse. A mágica do nome do Embaixador transformou o meu mundo, ainda que por 50 segundos.

Tudo isso foi motivado por ver O Menino do Pijama Listrado, numa tarde de desconforto por uma reles conjuntivite. O filme desencadeou todos esses pensamentos, aparentemente desconectados, que passaram por minha vida em momentos e circunstâncias diversas. Havia, entretanto, uma coisa comum a todas aquelas coisas: a violência fulanizada.

Bruno e Schmuel, um pai com o cadáver da filha nas mãos e um cônsul preocupado com todas a medidas possíveis...menos a necessária. Uma menina de 7 anos tentando entender porque era preciso mudar de lugar todas as noites e ficar perto de soldados, porque perto deles havia sempre alguma comida (mas havia também a possibilidade e a realidade do estupro, em troca da comida). O porteiro da Embaixada na tarefa grata ou ingrata de bajular os poderosos (ou os amigos deles) e humilhar os semelhantes.

A história de Bruno e Schmuel é, possivelmente, o filme mais violento que eu já ví. Houve outros com mais cenas de violência, mas esse era mais violento porque Bruno e Schmuel eram pessoas.

A história da fuga de Aija e sua família também, porque a violência estava ali na minha frente, em carne e osso. Era a minha amiga que a tinha sofrido. Foram precisos 36 anos de amizade para que conseguíssemos falar desse assunto.

Aceitem ser apresentados a Bruno e Schmuel. Talvez, depois, vocês consigam, como eu, muito mais do que queria: ver como morreram cada um dos 6.000.000 de judeus, cada um dos 110.000 iraquianos, cada um dos milhares de meninos nas favelas e nas ruas brasileiras ou de Mumbai.

De vez em quando é bom sair dos números e entrar nas pessoas.