O mercado livre e o poker

A maior expressão do mercado da civilização recente, a Bolsa de Valores, encontra paralelos curiosos ao jogo de poker.

Tanto no que se assemelham quanto no que são distintos, os conceitos e preconceitos que temos com o mercado podem ser bem explicados pelo funcionamento das regras de cada um.

O poker é um jogo de cartas de apostas. Em todas as suas modalidades (tradicional, Texas Hold’em, Omaha etc), faz-se apostas conforme o que se acredita serem boas ou más cartas que se possui em mãos. Para continuar jogando uma mão, é sempre preciso ao menos cobrir a maior aposta feita, ou desistir do que foi apostado na rodada para não pagar ainda mais.

Uma Bolsa de Valores também é um modelo de apostas. Alguém investe em uma empresa conforme o que se acredita que será seu potencial de lucratividade. Se uma empresa quebra ou não tem bons resultados, o dinheiro investido por seus acionistas é perdido. Há algumas semelhanças e diferenças importantes entre poker e o mercado financeiro que nos ajudam a visualizar nossos acertos e erros de perspectiva sobre o mercado.

Jogo de soma zero

O poker não produz riqueza. É um jogo no sentido estrito, e geralmente compra-se fichas para aposta com dinheiro real, mesmo em jogos Just for fun. A riqueza produzida por nosso trabalho, em outro lugar, é investida no jogo.

Quem ganha fichas no poker ganha de outra pessoa. É o famoso jogo de soma zero, em que se entra com uma quantidade X de riqueza, joga-se, a riqueza troca de mãos, ficando mais igualitária ou não, e a soma da riqueza de todos os jogadores na saída continua sendo exatamente X.

A Bolsa de Valores, ao contrário do que se pensa, não é um jogo de soma zero. Investir em empresas produz riqueza. O que era antes um punhado de farinha, ovos e açúcar vira um bolo com valor bem mais alto do que o valor de todos os seus ingredientes somado – mesmo porque um bolo produzido por um cozinheiro profissional e o mesmo bolo com mesma receita produzido por alguém sem a competência necessária não terão o mesmo valor.

Este erro fatal é usualmente cometido por críticos do mercado e da liberdade econômica, que tratam o mercado como um jogo de soma zero, onde toda a riqueza do mundo já está pronta, só sendo “tomada” pelos mais fortes. Toda a obra de Karl Marx é uma descrição em minudências de um sistema fictício tomado por real, em que “o capital”, inacessível aos comuns mortais, é a força anterior que toma a riqueza já pronta do mundo, através da exploração do trabalho alheio.

Seu erro é acreditar que o mundo já é “rico” - já tem sistemas de irrigação e de produção de alimentos em massa, além de transporte, remédios, receitas de bolos de pistache com castanhas-do-pará e smartphones, só precisando então “distribuir” a riqueza, acabando com a exploração. Para tal, sugere um poder político totalitário, visando atingir a igualdade econômica através de uma extrema desigualdade política – não notando que, então, estará, justamente, explorando as pessoas, numa economia de comando em que cada indivíduo produz sem ficar com os frutos de sua produção – e o Partido, que não produz, fica com a produção sem trabalhar.

Desigualdade de oportunidades

Não existe situação de maior nervosismo para um jogador de poker do que, quando ele está com poucas fichas, ir parar numa mesa com um jogador com muitas. Todo o seu cuidado com apostas deve ser multiplicado por dez: um jogador com fichas pode apostar tudo o que tem muitas vezes e reaver as fichas com facilidade; um jogador com menos fichas, assim que erra uma aposta completa (all in), é excluído do jogo e perde o seu dinheiro.

Numa Bolsa de Valores isso também acontece de forma mais lenta: obviamente que um investidor com pouco dinheiro não pode montar toda a sua cartela de ações em um investimento de alto risco, ainda que estes sejam usualmente os mais lucrativos.

Todavia, na Bolsa, estamos apostando em empresas já consolidadas. Uma pessoa pode muito bem ser dona de uma Apple, de uma Ford, de uma Coca-Cola, ainda que tenha uma participação menor – mas com a mesma lucratividade. No poker, aposta-se na habilidade própria de fazer as melhores apostas com as cartas distribuídas pelo acaso (no dizer de Schopenhauer, “O destino embaralha as cartas, e nós jogamos”), enquanto na Bolsa apostamos na capacidade de uma empresa inteira, muitas vezes mais antiga do que nosso tempo de vida, de continuar lucrando com os melhores produtos.

É como se, no poker, ao invés de apostarmos em nós mesmos, pudéssemos investir fichas para que os melhores jogadores de poker do mundo jogassem longas rodadas por nós – e com os melhores produtos (o equivalente a uma quantidade de fichas maior do que podemos pagar).

A famosa “desigualdade de oportunidades”, assim, é dirimida no mercado financeiro, como nunca se pode antes na história mundial: curiosamente, um preconceito comum com investidores é difundido a bocas largas na teoria, mas negado mortalmente na prática: a ideia de que “especuladores financeiros dominam o mundo”. Se assim o fosse, seria fácil enriquecer qualquer pessoa com algumas parcas economias: entrar na Bolsa. Mas os mesmos críticos do mercado que juram ser essa a verdade sobre o mundo morrem de medo dos riscos de perder todo o seu dinheiro no mercado financeiro, preferindo uma parca poupança bancária.

É também por isso que os adversários do livre mercado precisariam proibir o poker, além de tentar destruir o próprio mercado: para se atingir a “igualdade de oportunidades”, só se poderia proibir que alguém fique com as fichas que ganhou no jogo, assim como proibir que fiquem com o fruto do seu trabalho. Pior: na vida, existe a poupança, que pode ser contabilizada através de juros compostos. Se Pedro ganha o mesmo que Felipe, mas economiza R$ 100 por mês, enquanto Felipe gasta estes R$ 100 em cachaça, em 30 anos saberemos que um estará bem mais rico do que outro. Como então manter a “igualdade de oportunidades” para os filhos de cada um? Tomando o dinheiro poupado de Pedro (do qual ele não usufruiu) e dando novamente a Felipe, para ele gastar mais uma vez?

E lembrando, como Thomas Sowell, que tive as mesmas oportunidades de ser o Lionel Messi – o que me faltou foi talento. Por isso aproveitei outras oportunidades. E quanto maior a liberdade econômica, maior o espectro de oportunidades (ao invés de ser “operário” ou “camponês”, podemos decidir ser escritores, psicólogos, vendedores, cozinheiros...).

Ganhadores e perdedores

Tanto no poker quanto na Bolsa de Valores há ganhadores e perdedores. As fichas perdidas no poker ficam com outro jogador, já o dinheiro perdido na Bolsa é realmente riqueza perdida (um bolo queimado, que não pode voltar a ser farinha, ovos e açúcar para ser utilizado com outro fim).

É praticamente impossível falar com um investidor que nunca tenha tido seus revezes no mercado financeiro: ninguém prevê o futuro com tamanha maestria. Também os melhores jogadores de poker, como os melhores jogadores de qualquer esporte, não ganham 100% do tempo.

A sutileza para tal resultado chega a ser idiota de ser explicada, já que é um truque muito óbvio, mas cotidianamente por nossos teóricos e críticos de mercado: basta ter mais resultados favoráveis do que perdas. Um piloto de Fórmula 1 pode quebrar o carro várias vezes durante o campeonato – o que importa é que ganhe mais pontos no fim.

Assim agem investidores com cartela de ações diversificada, e bons jogadores de poker – que sabem inclusive administrar o fator psicológico de deixar o adversário ganhar algumas vezes para se arriscar a apostas mais altas, quando então age com maior destreza.

Como resultado, mesmo no ambiente desfavorável do poker – em que, por ser um jogo de soma zero, sempre que um ganha, está tomando dinheiro do outro, ao contrário da Bolsa de Valores, em que todos podem estar ganhando ao mesmo tempo com mais riqueza sendo trocada livremente – um jogador iniciante pode enriquecer, mesmo com sua “desigualdade de oportunidade”. Basta vencer a maioria das partidas – e, para tal, há diversos modelos de campeonatos que podem favorecer que sua ascensão não enfrente riscos tão desproporcionais. Exatamente como o mercado faz com as pessoas.

É por isso que o poker enriquece tantas pessoas: mesmo que os campeões fiquem com muito dinheiro em campeonatos grandiosos, não significa que todos os outros jogadores estão mais pobres. Significa tão somente que a maioria está administrando seus momentos de “perda”.

Quando for a um cassino, portanto, ao invés de comprar cem fichas de roleta e jogar cem vezes, jogue todas de uma vez. Um cassino pode te dar algum dinheiro, mas todas as suas contas são feitas para que, em mais de 90% das vezes, ele que ganhe o seu dinheiro. Não caia no erro de ganhar uma vez e, por isso, achar que vai ganhar alguma outra se apostar mais dez vezes.

No mercado financeiro, quando uma empresa ganha muito, ela não ganha sozinha: sua riqueza é também externalizada. Quando uma empresa de transportes lucra, mesmo que João nunca utilize os seus serviços, ela facilita que mais mercadorias cheguem a João por um menor preço. ambos estarão ganhando nisso, já que a realidade não é um jogo de soma zero.

Seria como se, no poker, os jogadores fossem empresas de capital aberto: pudéssemos “investir” em jogadores como Barry Greenstein, Gus Hansen, Doyle Brunson ou Jennifer Harman, ficando com um percentual de seus lucros e dividendos.

Infelizmente, ainda tentamos enriquecer os pobres com modelos falidos de gerenciamento estatal, em que o dinheiro de um é tomado por outro para ser dado a um terceiro, e obviamente que o gerenciador ganha mais, sem produzir nada, do que quem produziu e do que o favorecido final. Seria muito mais sensato ensinar aos desfavorecidos os meandros do enriquecimento conjunto, com as consequências de suas próprias decisões, na Bolsa de Valores. E o poker pode ser uma excelente introdução.

Há muito ainda a unir o poker e o mercado, como poupança e juros, variáveis de tempo e conhecimento, a incapacidade do blefe no mercado... mas isso ainda fica para lições futuras.

Por ora, apenas uma lição para os já iniciados no poker: viver significa dar fold e all-in muitas vezes antes de ter um Royal Straight Flush nas mãos.