O mito do Plano Marshall

Quase sempre quando há uma crise internacional vários grupos invocam o mito do Plano Marshall, querendo  implantar um grande projeto de transferências de fundos. É o que está acontecendo no caso da crise europeia. Foi recentemente o investidor George Soros que mostrou sua falta de conhecimento histórico, pronunciando que a Europa precisa de um novo Plano Marshall e que foi acima de tudo a generosidade americana que trouxe o velho continente de volta à estrada para a prosperidade depois a segunda guerra mundial. Soros ressaltou que o milagre econômico da Alemanha Ocidental no pós-guerra foi resultado do Plano Marshall, e que agora é a vez da Alemanha fazer o mesmo para o sul da Europa. Porém, os fatos contam uma história diferente do que aqueles que querem nos fazer crer que para que as economias crescerem o estado precisaria gastar cada vez mais dinheiro para "estimular" as economias em depressão.

Tamanho

O Plano Marshall não era um programa muito grande em termos financeiros, dado o fato de que grandes partes da Europa foram destruídas e o programa se espalhou por 16 países europeus. De 1948 até 1951 US$ 12,7 bilhões foram gastos no âmbito do Plano Marshall, que em dólares de hoje equivaleria a um pouco mais de US $ 122 bilhões.

Deste montante, a maior parte foi para o Reino Unido (26%) e França (18%). A Alemanha Ocidental recebeu US$ 1,5 bilhões (11%) que foi, provavelmente, apenas suficiente para compensar o progressivo desmantelamento das indústrias e o confisco de patentes alemãs, direitos autorais e marcas comerciais. Em outras palavras: enquanto as forças aliadas continuaram a destruir a base industrial alemã, comprovantes foram enviados à Alemanha para comprar produtos dos Estados Unidos.

O papel da União Soviética

A União Soviética foi convidada a participar do Plano Marshall, mas se recusou a fazer parte do programa. Ao invés, a União Soviética instalou seu próprio tipo de plano quando apropriou uma quantia aproximada à do Plano Marshall via reparações físicas dos países que estiveram sob o domínio soviético depois que Churchill e Roosevelt entregaram a Stalin toda a Europa Oriental. A Polônia foi empurrada para o oeste e o que veio sob a nova regra foi uma limpeza étnica. Uma pesquisa estima que entre 1945 e 1950 a Europa testemunhou a maior migração forçada da história quando entre 12 milhões e 14 milhões de pessoas (principalmente mulheres, idosos e crianças) foram expulsas de seus locais de nascimento na Tchecoslováquia, Hungria, Romênia, Iugoslávia, e do que são hoje os distritos da parte ocidental da Polônia. Aqueles que não podiam fugir e foram deixados para trás caíram sob a ditadura soviética e experimentaram seu próprio tipo de sofrimento e escravidão verdadeiro pelas próximas cinco décadas.

Mudança de planos dos EUA

Até o ano 1947 os Estados Unidos seguiram a diretiva JCS 1067 da ocupação que foi inspirado pelo plano Morgenthau elaborado no Tesouro dos EUA. Em julho de 1947 com o advento do planejamento inicial para o Plano Marshall destinado a promover uma recuperação da economia europeia, as restrições foram mudadas e a diretiva 1067, cuja seção econômica havia proibido "passos visando a recuperação econômica da Alemanha [ou] concebidos para manter ou fortalecer a economia alemã", foi substituído pela nova diretiva JCS 1779 de ocupação que em vez afirmou que "de maneira ordenada, uma Europa próspera requer as contribuições econômicas de uma Alemanha estável e produtiva."

Os Estados Unidos finalmente identificavam a União Soviética como seu novo inimigo e aprenderam com relutância e somente passo a passo que sem a recuperação alemã não haveria recuperação econômica para o resto da Europa.

Economia do plano Marshall

Tyler Cowen desmistificou uma série de contos de fadas pertinentes à economia do Plano Marshall. Segundo Cowen, o plano Marshall não foi um fator significativo da recuperação econômica do Europa ocidental. Tyler Cowen afirma que os países que receberam mais ajuda cresceram menos do que os países que receberam menos. Em alguns casos a ajuda dos EUA era problemática de verdade, quando, por exemplo, em vez de equipamentos agrícolas, os EUA entregaram tabaco; e quando o Plano Marshall ajudou a Grã-Bretanha e a França a adquirir equipamento militar a fim de continuarem suas guerras coloniais contra os movimentos de independência.

O político alemão Ludwig Erhard, que praticou sua política de mercado livre em 1948 contra os planos e conselhos foi mais importante para a recuperação alemã do que a ajuda do plano Marshall. O que importava muito mais do que a ajuda financeira era a liberalização econômica, a estabilidade monetária e fiscal relativa (que hoje em dia é falsamente chamada de austeridade) e o lançamento da integração econômica. Não foram os fluxos financeiros em si, mas as condições associadas ao Plano Marshall que foram decisivos para a recuperação europeia: a integração econômica e o livre comércio. O Plano Marshall foi responsável pelos primeiros passos para construir o que mais tarde tornou-se o Mercado Comum e posteriormente a União Europeia.

O efeito do Plano Marshall

É preciso reconhecer que o Marshall foi crucial para a recuperação da Europa. No entanto, foi crucial de maneira bem diferente do que os traficantes de políticas de estímulo sugerem. O Plano Marshall acabou com os planos genocidas que estavam em ação anteriormente. O plano estabeleceu a opção de integração europeia e inaugurou o caminho para a Alemanha Ocidental se tornar um membro respeitado da comunidade da Europa Ocidental. A contribuição mais importante do Plano Marshall foi acabar com a “incerteza do regime” na mesma forma que aconteceu nos Estados Unidos. Mais importante do que os fluxos financeiros foi a restauração da confiança dos empresários, a crença de que investimento iria render e que, em face da miséria absoluta e da destruição, o investimento marginal levaria a enormes lucros. Para o povo alemão, o plano Marshall eliminou o temor de os cidadãos serem empurrados para a pobreza para sempre, e  acendeu a luz da esperança para a prosperidade. Em outras palavras: o plano Marshall, junto com as reformas internas, libertaram o espírito empreendedor. Foi a recuperação da Alemanha que puxou o resto da Europa em direção à prosperidade.

A Europa atual

Ao contrário do que muitas vezes é dito na imprensa, o sul da Europa recebeu um "Plano Marshall" já de forma maciça ao longo das duas últimas décadas em termos financeiros. Ao contrário do que a mídia pronuncia, uma união de transferência europeia está em vigor há muito tempo. Assim, clamar por um novo "Plano Marshall" é um disparate total e tal afirmação baseia-se na ignorância.

A verdadeira lição do Plano Marshall é que algo bem diferente de dinheiro é necessário. O que importa são boas instituições, livre mercado e política sem corrupção.  O grande desafio é saber se a União Europeia será capaz de espalhar os princípios da boa governança para o sul da Europa. As transferências financeiras assim servem como instrumentos para iniciar reformas estruturais. Aqueles que clamam por um "novo Plano Marshall" e só tem o fluxo de fundos em mente não apenas expõem seu analfabetismo histórico, mas também sua ignorância econômica. Os propagandistas de um “Novo Plano Marshall para Europa” não aprenderam a lição básica do plano Marshall original que ensina que foram as condições para receber os fundos que fizeram do plano um sucesso.

Conclusão

O efeito benéfico do Plano Marshall não veio principalmente da transferência de fundos, mas a partir das condições impostas para recebê-los. Estas condições empurraram a Europa para a abertura das fronteiras e ao livre comércio e o plano acabou com a incerteza do regime. Foi precisamente porque promoveu as reformas estruturais necessárias dos países europeus que o Plano Marshall funcionou. Os promotores de um "Novo Plano Marshall" tentam fazer exatamente o oposto: fornecer fundos para impedir as reformas estruturais. Eles pedem mais dinheiro para evitar reformas das finanças públicas e dos gastos sociais. Eles querem pressionar os governos europeus em um ciclo interminável de expansão monetária e fiscal e uma dívida insustentável que vai prejudicar essas economias para as próximas décadas. Os verdadeiros herdeiros do Plano Marshall não são aqueles que promovem um fluxo incondicional de recursos do Norte para o Sul, mas aqueles que demandam condições estritas com tais fluxos.