O triunfo do keynesianismo

No meu artigo anterior, concluí afirmando que, desde a queda do Muro de Berlim, a ideologia que se tem vindo a afirmar como principal sustentáculo do intervencionismo estatal é o keynesianismo, uma tendência que se reforçou no contexto da atual crise internacional.[1] Uma alegação que pode parecer exagerada – talvez até infundamentada – tanto para apoiantes como para opositores das ideias e influência política de Keynes. Por isso mesmo, importa fundamentar de forma mais detalhada esta alegação específica, sem prejuízo, naturalmente, da necessidade de uma análise mais aprofundada da atual crise à luz do debate entre Keynes e Hayek[2].

Para ter noção da medida do triunfo ideológico do keynesianismo, nada melhor que recordar um dos mais marcantes e representativos textos políticos do próprio Keynes: The End of Laissez-Faire [O fim do laissez-faire], cuja leitura ou releitura integral se recomenda. Neste curto, mas influente, artigo, originalmente publicado em 1926, Keynes não se limitou a anunciar, em tom panfletário, o fim do (alegado) sistema de laissez-faire que teria estado em vigor. Keynes apontou também – com algum detalhe e notável presciência em termos de orientação geral – o programa de alargamento do intervencionismo estatal que se veio gradualmente a tornar dominante no âmbito das chamadas economias capitalistas.

A parte do referido artigo que é dedicada à análise do passado é superficial – mesmo para um texto panfletário – e o seu interesse reside essencialmente na perspectiva que proporciona sobre a leviandade de Keynes tanto em termos históricos como teóricos. (A este propósito, veja-se Keynes, The Man [Keynes, o homem] de Murray N. Rothbard.) Para ilustrar essa leviandade, vale a pena recordar a forma como Keynes entendeu adequado sintetizar o pensamento político do Séc. XIX no âmbito da sua muito peculiar narrativa pessoal sobre a gênese, ascensão e queda do laissez-faire:

A primeira parte do Séc. XIX celebrou a união miraculosa. Ela harmonizou o conservadorismo individualista de Locke, Hume, Johnson e Burke com o Socialismo e o igualitarismo democrático de Rousseau, Paley, Bentham e Godwin.

A superficialidade panfletária de Keynes no tratamento do passado é no entanto combinada no artigo com uma extraordinária capacidade de antecipação do futuro em alguns aspectos fundamentais. Em The End of Laissez-Faire, Keynes revela ter já percebido a inviabilidade dos modelos socialistas exclusivamente centrados no estado. Para Keynes, o comunismo é não só indesejável como está, a prazo, condenado ao fracasso. Mas essa compreensão não leva Keynes a moderar o seu notório antagonismo e desprezo pelo sistema que ele identifica como laissez-faire. Pelo contrário, a consciência das irremediáveis limitações do “Socialismo e estado” levou Keynes a empenhar-se ao máximo para apresentar um caminho alternativo para combater e eliminar o liberalismo clássico. Esse caminho passa não só por intervenções diretas na economia (à semelhança do que defendiam muitos outros socialistas do seu tempo), mas também por um outro meio que, para Keynes, é muito mais importante e eficaz para o alargamento do poder do estado e das elites que o controlam: a gradual e crescente intervenção estatal no funcionamento das empresas através de instrumentos corporativistas.

É nessa lógica que, depois de defender a necessidade de promover a “semissocialização” de muitas grandes empresas, Keynes afirma:

devemos manter as nossas mentes flexíveis relativamente às formas desse semissocialismo. Temos de aproveitar ao máximo as tendências naturais do presente, e temos provavelmente de preferir empresas semiautônomas a órgãos do Governo Central pelos quais são directamente responsáveis Ministros do Estado.

Não é preciso grande esforço para perceber como as principais linhas de força do aumento do intervencionismo estatal nos dias que correm se enquadram perfeitamente no modelo corporativista prescrito por Keynes, um modelo que é também perfeitamente consistente com as crescentes pulsões neo-mercantilistas. O uso e abuso de golden-shares, a crescente politização das grandes (e por vezes também pequenas) decisões de investimento, a instrumentalização dos poderes regulatórios para fins intervencionistas e os recentes bail-outs (tragicamente apoiados por alguns defensores do liberalismo) são, no seu todo, uma significativa manifestação do triunfo político do keynesianismo.

Keynes pode ter decretado o final de um imaginário sistema de laissez-faire, mas o caminho por ele apontado para o futuro é hoje, em larga medida, a realidade na qual vivemos.

 

Notas

[1] Várias das reflexões que estiveram na base deste artigo foram suscitadas pela discussão decorrida no âmbito do colóquio do Liberty Fund que decorreu em Portugal, no Estoril, em Junho de 2010, sob direcção de João Carlos Espada. O autor agradece por isso a todos os intervenientes pela diversidade de ideias expressas e pela vivacidade do debate.

[2] MOREIRA, José Manuel e ALVES, André Azevedo. “Crise económica e financeira ou cultural e institucional? Análise à luz do debate entre Hayek e Keynes”, in Revista de Economia & Relações Internacionais 9 (17), 2010 (no prelo).