O vício do coletivismo metodológico

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Frequentemente os sociólogos são culpados de exagerar na simplificação de seu objeto de estudo. Para fazer com que a sociedade caiba dentro de modelos inteligíveis, a complexidade dos grupos é reduzida à unidade da agência dos indivíduos. E essa unidade coletiva operaria de forma ainda mais simples que a psique individual, obedecendo a leis mais previsíveis e limitadas que a psique de qualquer um dos indivíduos que as compõem.

Marx e Comte parecem ser os exemplos mais óbvios de pensadores ridicularizados pela simplificação historicista a que subjugaram as dinâmicas sociais. O proletariado marxista, por exemplo, consegue agir com muito menos complexidade do que o comportamento de qualquer trabalhador individual. E seu privilégio histórico e até epistemológico — o proletariado é a classe agraciada pela história com o destino de abolir as divisões de classe, a exploração, a falsa consciência, e a dependência da humanidade nos poderes impessoais, além de adquirir a consciência de seu destino — funciona com a simplicidade de uma necessidade, descartando-se o enfrentamento de possibilidades abertas.

No entanto, oponentes do coletivismo metodológico acabam várias vezes repetindo os erros de seus adversários. Na empolgação de explicar o funcionamento econômico de uma sociedade, o termo mercado acaba ganhando o ânimo de um agente individual, contra o qual outro agente, o Estado, se levanta, igualmente despido das complexidades das pessoas que compõem a comunidade reivindicadora do monopólio geográfico da coerção.

Lembro que em seus momentos de maior vigor retórico, Murray Rothbard consegue descrever a anatomia do Estado enquanto vilão que protagoniza a trama. Porém, esse vilão possui dentro de si uma série de relações de poder entre as diversas partes, partidos políticos, poderes partidos, agências burocráticas, grupos de interesse, firmas rentistas etc. Esses grupos têm objetivos e incentivos distintos, e estão normalmente em constante conflito. Sem a compreensão da complexidade orgânica do Estado, qualquer teoria política tem sua capacidade explicativa seriamente limitada.

Uma das conseqüências dessa simplificação é que o Estado fica idêntico a determinada conjuntura política e o mercado fica indissociável dos negócios, o capitalismo confunde-se com os capitalistas. Mas é claro que o liberalismo não é a doutrina de oposição ao PT, nem a ideologia de apoio às Casas Bahia. A liberdade política refere-se à justiça das relações entre indivíduos ao longo do tempo. Tanto partidos quanto empresas devem ser examinados e julgados à luz de instituições e das suas ações nos processos políticos e econômicos. Quando economistas de qualquer escola, por exemplo, falam sobre o crescimento do Estado, deve se lembrar que o Estado não é uma entidade autônoma para qual o crescimento é algo homogêneo. Existem formas diferentes de crescer. Eu, por exemplo, não começaria a enxugar o Estado eliminando os tribunais de justiça; prefiro começar abolindo seus tentáculos mais perniciosos, como a educação compulsória, ou o combate às drogas e à liberdade de imprensa.

Um liberal deve constantemente defender o mercado do interesse das empresas, e até mesmo o governo do interesse de partidos políticos. Os grandes negócios são os grandes inimigos do processo movido a concorrência. Como diz o economista Luigi Zingales, devemos ser enfaticamente a favor do mercado e enfaticamente contra as empresas. Ou seja, devemos defender um processo institucional, e não o interesse de algum participante em particular.

É por isso que as análises de escolha pública são tão importantes: para nos livrar de vícios coletivizantes e para nos ajudar a compreender do que se passa dentro do Estado, do mercado, e como integrantes associados a quaisquer uma dessas entidades podem apresentar riscos à liberdade humana.

* Publicado originalmente em 14/07/2009.