Opção preferencial pela riqueza - José Osvaldo de Meira Penna

Opprbanner

Desejo chegar a uma resposta plausível para a questão que enche toda essa obra e domina o momento atual brasileiro: a chamada "questão social". Se reconhecemos, em nosso país, a existência de contrastes excessivos de renda, fortuna, educação, saúde e cultura - que fazer para corrigir essa situação? Insisto que a pergunta "que fazer?" encontra-se tanto no conservadorismo ético da razão prática de um Kant, quanto no título de um livro revolucionário de Lênin.

Pode-se, naturalmente, encolher os ombros diante da miséria. Podem-se aceitar as desigualdades. Pode-se mesmo enfatizá-las, glorificá-las nietzscheanamente, pretender que o darwinismo social selvagem constituía ideal de progresso: muita gente, hoje, exasperada com a retórica de esquerda, já aceitaria como legítima essa postura (é o caso do egoísmo heróico e "objetivista" da judia russa Ayn Rand, favorecida com um verdadeiro culto no EUA!) No Brasil, esse tipo de reação é bastante comum - embora quase sempre silenciosa ou inconsciente. Há gente que pensa: negro é burro mesmo; o que se deve fazer é obrigá-lo a trabalhar (uma ração aliás mais encontradiça entre gente branca humilde que na classe A...). Há também gente para a qual a questão social permanece, como antes de 1930, "uma questão de política".

Nos ensaios que se seguem - alguns dos quais reproduzem textos publicados em meu livro Psicologia do Sub-desenvolvimento, hoje completamente esgotado - procuro abordar o problema de moral, levantado pela pobreza e o atraso, as atitudes contraditórias diante da riqueza de protestantes católicos, e a questão mais imediata de nossa "vocação" para o desenvolvimento. Creio na oportunidade do tema: pela quarta vez nestes últimos 60 anos (depois das tentativas abortadas de Getúlio Vargas, de Juscelino Kubitschek e dos militares de 1964-71) estamos tentando dar nova partida ao processo de modernização. Talvez desta vez sejam melhores as perspectivas, pois o mundo todo sofre os contrachoques da Revolução neo-liberal que principiou na década passada, no Ocidente. Acima de tudo, inicio uma abordagem filosófica dos problemas da Ordem, da Justiça e da Liberdade, que espero poder tratar mais extensamente em outra ocasião.

J. O. de Meira Penna