Os liberais nas urnas

Nesse ano, alguns bravos libertários se arriscarão nas urnas nos mais de 5 mil municípios brasileiros que elegerão prefeitos e vereadores. É de se admirar a coragem de jovens liberais que aceitaram essa tarefa, não apenas pela associação comum entre a prática política e a corrupção, mas principalmente porque será deles a tarefa inglória de trazer um pouco de realismo a um mundo em que a fantasia é a moeda corrente. Em meio a uma feira livre de benesses aparentemente gratuitas - já que José e João raramente sabem quem paga os presentes distribuídos pelos políticos a um e a outro - os liberais defenderão um programa claramente diferente das propostas de seus concorrentes. Ao invés de prometer subsídios e favores a grupos de interesse, os liberais concorrerão com a certeza de a população poderia fazer algo por ela mesma, se apenas os políticos e a regulamentação estatal a deixassem em paz para fazê-lo. Não nos enganemos: a batalha será árdua, e o bote libertário navegará contra a corrente e morro acima.

Imaginemos o seguinte quadro:

É o primeiro dia do horário eleitoral e depois de meia hora de promessas para José e para João, o candidato aparece na tevê do eleitor comum e diz: “Boa noite. As senhoras e os senhores devem estar esperando ouvir mais promessas de obras e melhorias que nós poderíamos, como mágica, fazer aparecer no seu bairro. Mas hoje eu estou aqui para lhes prometer apenas uma coisa: caso eu seja eleito, eu prometo deixar-los em paz. E os meus esforços, a partir do primeiro dia do meu mandato, serão direcionados para que eu e meus colegas vereadores trabalhemos cada vez menos, produzamos cada vez menos legislação e revoguemos boa parte das que estão em vigor.” Imaginem um candidato que parafraseasse Roberto Campos, que, eleito para fazer o bem, acabou resignado, buscando apenas evitar fazer o mal.

É provável que a ousadia rendesse ao candidato alguma dose de propaganda espontânea. Difícil mesmo seria arriscar a reação dos eleitores. Durante um processo eleitoral em que os políticos brigam para provar quem entre eles pode fazer mais pelo povo, quando a percepção da sociedade é que políticos não trabalham o suficiente, o discurso liberal traria estranhamento e certamente alguma chacota. Entretanto, o retorno dessas idéias ao debate político brasileiro será um processo longo e esse estranhamento não deve ser indicação da inadequação do liberalismo à realidade brasileira, mas do quanto ele e seus defensores são necessários nesse momento. No Brasil de hoje, a causa da liberdade também precisa fincar bandeira no campo político partidário. Nós precisamos de candidatos-empreendedores, dispostos a desbravar esse campo ainda não explorado e reintroduzir as idéias liberais no debate. Se é verdade que boa parte dos brasileiros prefere pagar menos impostos e contratar mais serviços privados, deve haver um bom mercado para esses empreendedores no país.

A questão é como fazer esse produto chegar à prateleira. As restrições impostas à criação de novos partidos são imensas. Os partidos estabelecidos dividiram esse mercado entre si e fecharam a porta aos novos participantes. Sem poder concorrer por um partido que verdadeiramente o represente, o liberal acaba tendo que procurar abrigo em outra legenda, acomodando-se entre correligionários com idéias iliberais e partidos que exigem contribuições para aprovar a sua candidatura. Se a política for mesmo the art of compromise, o possível candidato libertário é condenado a exercitar tal arte um pouco antes de seus concorrentes, já que própria existência de sua candidatura está condicionada à sua capacidade de acomodação em um partido não-libertário.

Mas então, com todos esses problemas, por que um liberal deveria entrar na política? Se é para ser visto como corrupto, se é para concorrer em uma campanha longa e cara, contra candidatos que possuem os recursos da máquina pública e o apoio de empresários que dela dependem, por que se arriscar? Por que valeria a pena?

A resposta está no número de leis esdrúxulas que vemos aprovadas todos os dias. Nos ataques às liberdades que passam sem que nenhuma voz se levante contra elas no parlamento ou no poder executivo.

É válida a participação dos liberais na política, mesmo sem a pretensão de eleger maiorias ou participar de governos. Poucas vozes podem ser o bastante para que iniciemos um debate e a existência de uma discussão sobre o papel do estado já seria um avanço frente ao quadro atual. E não nos esqueçamos de algo importante nos tempos que vivemos: de uma hora para outra, um político solitário pode se tornar o símbolo de um movimento. A internet pode trabalhar em favor dos liberais, dos potenciais “Doutores No” escondidos pelas cidades brasileiras. Idéias fazem eco. Em 2012, nós precisamos de políticos novos, que se apresentem e abram essa nova frente para as idéias da liberdade.