Os perigos dos uniformes escolares “dedo-duro”

Notícias informam sobre a experiência que vai ser realizada em Vitória da Conquista, na Bahia (316.000 habitantes), que vai colocar um chip para fiscalizar se os alunos entraram na escola ou não.

Vamos tentar olhar um pouco além da mera frequência às aulas.

Basicamente, tenho boa vontade. Acredito que quase todas as inciativas tomadas por políticos e administradores são bem intencionadas e são, em princípio, defensáveis em e por si.

A porca torce o rabo, entretanto, é quando começamos a pensar em todas as implicações de cada uma dessas “boas” inciativas individualmente.

Claro que o mundo está melhor graças à ciência e à tecnologia, mas raramente vamos além disso para examinar as implicações e consequências não antecipadas delas.

Para começar, o chip controlará a presença na escola, mas, rapidinho, algum burocrata vai começar a propor a instalação do chip em shoppings, campos de esporte e, a custo barato e muito cedo teremos mais um big brother fiscalizando-nos o tempo todo.

Li em algum lugar que, em 10 minutos de caminhada, em Nova York passamos por uma média de 16 câmeras que controlam o trânsito de pedestres e de veículos. Em boa parte dos casos não as vemos e o que os olhos não veem o coração não sente. Só que as câmeras lá estão e não sabemos quem está na outra ponta, nem com que intenções.

Nossos telefones celulares já fornecem nossos roteiros a inúmeros burocratas sem face, desde os bem intencionados aos mal intencionados. O que nos leva à separação entre boas e más intenções.

Não tenho nenhuma dúvida que os tribunais da inquisição acreditavam que tinham as melhores intenções (mandar os hereges para o céu), bem como os oficiais nazistas que exterminaram milhões, judeus e muitos outros, cujas preferências, hábitos ou crenças não lhes agradavam.

Quando tomamos conhecimento do que ocorreu na inquisição e durante o nazismo, ficamos horrorizados. Mas, as intenções, segundo seus autores, eram sempre apresentadas como sendo as “melhores.”

Hannah Arendt, cientista social judia, cobriu o julgamento de Eichmann. O livro chama-se Eichmann em Jerusalém. Mas, o que nos conta o horror da história é o subtítulo: A banalidade do mal.

Eichmann não era louco, não era cruel, nem era doente. Era apenas um burocrata que foi encarregado de matar judeus e fê-lo com a maior eficiência que conseguiu porque “essa era sua tarefa.”

Como ele, milhões de outros burocratas cumprem suas tarefas violando nossa privacidade sempre em busca de um bem maior, ou apenas porque essa é a sua tarefa. Acham que não lhes cabe julgar a ética ou a correção das suas tarefas. Fazem isso automaticamente. Piores são os que acham que estão fazendo o bem.

A inteligência artificial já nos informa que sensores são capazes de medir a direção de nossos olhos quando fitamos a tela de um computador. Se ele estiver ligado na internet, muitas outras pessoas estarão lendo ou adivinhando nossos pensamentos. Não está satisfeito, desligue a câmera que fica acima do seu visor. A má notícia: não adianta. Os sensores que vêm seus olhos e pensamentos estarão distribuídos por toda a tela de seu computador.

Se quiser uma visão do que já fazem com os dados que coletam de nossas andanças pelo ciberespaço, uma boa leitura é o livro Numerati, de autoria de Stephen Baker (Editora ARX). Ele nos conta quantas coisas bons matemáticos competentes passam a saber a nosso respeito, apenas analisando números de nossos passeios pela Internet.

Agora vamos às consequências mais graves. Tudo isso, que já existe hoje, virou tão comum que nos acostumamos e consideramos tudo normal.

A meninada de Vitória da Conquista, acabará se acostumando com os chips e daqui a pouco eles serão estendidos para outras cidades e as gerações que serão controladas desta maneira crescerão com a noção que todos esses controles (que podemos chamar também de espionagem) são coisas normais e inofensivas...até que alguém resolva fazer usos escusos (a rima é acidental).

Quanto mais isso crescer, menos privacidade teremos e não saberemos quem ou quantos terão acesso a estes dados e ficaremos potencialmente robotizados.

Para um libertário antiquado como eu isso é assustador. Para as novas gerações isso será normal. As estatísticas dizem que não devo sobreviver para ver tudo isso, mas minha imaginação, quiçá fantasiosa, vê coisas muito assustadoras.

Vamos tomar cuidado com as consequências não antecipadas dos burocratas que, como Eichmann, estão simplesmente cumprindo suas funções.

Legisladores, fazedores de normas e burocratas quase nunca têm que conviver com as consequências de suas decisões.

O que estamos perdendo, todos os dias, é o sagrado direito de sermos deixados em paz. Apesar de, no geral, ser um otimista racional, assusto-me muito com isso.