Por que a esquerda brasileira odeia Yoani Sánchez?

Yoani Sánchez, a jornalista cubana famosa por expor o cotidiano na ilha-prisão dos irmãos Castro em seu blog "Generación Y", está no Brasil. Em sua chegada, foi hostilizada por um pequeno grupo presente ao Aeroporto Internacional de Recife.

Questionada, Yoani se manteve firme aos princípios que sempre defendeu: "Foi um banho de democracia e pluralidade, estou muito feliz e queria que em meu país pudéssemos expressar opiniões e propostas diferentes com esta liberdade", afirmou.

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A despeito do caráter (involuntariamente) cômico do "protesto" em Recife, o fato é que o ódio a Yoani Sánchez tem sido uma regra da esquerda nacional (com raríssimas exceções).

Pelas redes sociais isso fica bem claro. O "Blog da Dilma" se alegra ao relatar que "O baiano fugiu à regra de povo hospitaleiro com a blogueira cubana Yoani Sánches" (sic). No Twitter, o ator José de Abreu (expoente petista no meio artístico) destila diariamente sua raiva pela blogueira cubana, incitando seguidores a darem-lhe uma "bela recepção no aeroporto".

Esse ódio a Yoani demonstra, na verdade, um mal-disfarçado desprezo pelo povo cubano. O amor de artistas, intelectuais e políticos de esquerda por Cuba (apregoado em camisetas, adesivos, bandeiras, etc) é falso.

É comum que estes visitem Cuba e lá sigam o roteiro padrão de louvor e adulação ao "paraíso socialista", prestando obrigatoriamente suas homenagens ao ditador vitalício moribundo Fidel Castro. Quando começam a sentir falta dos pequenos luxos que mesmo as menos desenvolvidas das economias capitalistas podem prover, retornam às suas coberturas no Leblon ou mansões em Brasília.

Pena que aos cubanos comuns não seja dada a mesma possibilidade de deixarem o país de acordo com sua livre vontade. A eles seu governo reservou (com a cumplicidade de diversos países democráticos, dentre eles o Brasil) destino similar ao de animais de zoológico que recebem visitas e até podem ficar com algumas migalhas deixadas por visitantes. Mas ao final do dia o portão se fecha e as alternativas se resumem a esperar ou fugir. Desde o início das restrições a viagens internacionais, milhares de cubanos arriscaram suas vidas tentando cruzar alguns quilômetros de mar revolto a bordo de carcaças de automóveis, jangadas e até banheiras.

O amor e a devoção da maior parte da esquerda latino-americana a Cuba serve de sustentação política e, especialmente, econômica para o cambaleante Castrismo. Com o fim da URSS, a ineficiência da economia socialista cubana ficou mais do que evidente. A ajuda de líderes políticos latino-americanos ideologicamente alinhados tem garantido uma sobrevida à ditadura cubana. E o Brasil vergonhosamente sido um pilar importante, econômica e politicamente, na sustentação da mais antiga ditadura das Américas.

Após 5 anos em busca de autorização para viajar ao exterior, Yoani Sánchez finalmente teve sua viagem autorizada. Está no Brasil onde já sofre tentativas de intimidação por parte de inimigos da liberdade cubanos e brasileiros.

A esquerda brasileira odeia Yoani Sánchez porque ela não se submeteu à aviltante condição de propriedade do Estado. Ela voltou ao país por livre e espontânea vontade para cuidade de sua família e não se limitou a baixar a cabeça e seguir adiante (como compreensivelmente faz a maioria dos cubanos). Yoani foi presa, agredida e ameaçada diversas vezes pela polícia cubana. Ela é tratada pelo regime castrista como uma inimiga pública. A esquerda brasileira, fazendo uso de liberdades negadas a qualquer cubano comum, regurgita ofensas a Yoani - traidora, mercenária, ... daí para baixo!

Lamentemos isso. Mas não deixemos que Yoani tenha sua voz calada no Brasil, assim como tem diariamente em Cuba. A liberdade de Yoani Sánchez também é a nossa liberdade.


Yoani Sánchez palestrará no 26° Fórum da Liberdade, dias 8 e 9 de abril em Porto Alegre. Na sua 24ª edição, o Fórum concedeu a ela o Prêmio Liberdade de Imprensa: