Por que Bolsonaro está errado

Se você tem acompanhado artigos de análise e colunas de opinião pela última semana, provavelmente já leu tudo o que tinha a ser dito sobre as declarações do deputado Jair Bolsonaro. Com suas simpatias pelo regime militar, Bolsonaro ofendeu gays, negros e aqueles que foram vítimas da ditadura.

Mas há uma coisa, aposto, que você não leu: um argumento bem elaborado sobre por que Bolsonaro está errado. Quase todas as pessoas de cultura discordam das opiniões de Bolsonaro. Quase nenhuma delas se dá ao trabalho de examinar o motivo da discordância. Chamá-lo de preconceituoso, homófobo e fascista não encerra a discussão. Para vencê-la, é preciso demonstrar por que o preconceito, a homofobia e o fascismo estão errados.

Estamos tão acostumados a desconsiderar opiniões como a de Bolsonaro que às vezes nos esquecemos de entendê-las. Apela-se logo para a via judicial, como fez Preta Gil. Querem processar Bolsonaro, cassar Bolsonaro, colocar Bolsonaro atrás das grades. Seria inteligente, antes disso, querer refutar Bolsonaro.

A ironia é inegável. Aqueles que querem calar Bolsonaro por ser intolerantes não conseguem enxergar a própria intolerância ao tentar proibir opiniões contrárias às suas. As bobagens ditas pelo deputado são importantes para lembrar a nossa sociedade o que é conviver com a liberdade de expressão, e por que é tão importante defendê-la.

Em meados do século XIX, John Stuart Mill escreveu uma das mais eloquentes defesas da liberdade de expressão no seu livro Da Liberdade. Quando protegemos o direito de qualquer indivíduo se expressar contra a opinião majoritária, dizia Mill, não estamos apenas concedendo um favor aos dissidentes. A possibilidade de dissidência é vital para testar e validar a opinião majoritária. Muitos cristãos entendem que o cristianismo não é apenas repetir inconscientemente o que nossos pais nos ensinaram. É preciso nascer de novo. A experiência da conversão fortalece a fé.

A opinião que recebemos da família, da escola, ou da sociedade também precisam nascer de novo para que ganhem raízes na nossa consciência. Somos menos propensos ao mal quando fazemos uma escolha consciente pelo bem. Assim deve ser a experiência do cidadão que vive em uma sociedade tolerante. Apenas quando contrastamos nossas opiniões com as demais (às vezes aparentemente repulsivas) conseguimos atingir um nível profundo de compreensão e convicção sobre a veracidade da nossa própria opinião.

Quando confiamos ao estado o papel de expurgar opiniões contrárias, estamos enfraquecendo nosso próprio sistema imunológico moral. A opinião mais verdadeira fica debilitada quando não permitimos que a contestem. Ela perde “seu efeito vital sobre a moral e a conduta”, dizia Mill, “o dogma se torna uma mera profissão formal”.

Quero viver em uma sociedade tolerante, em que a maioria da população prefira a tolerância liberal em rejeição a ideologias totalitárias como o fascismo e o comunismo. Mas apenas compreendemos o valor da tolerância liberal quando entendemos o apelo do fascismo e do comunismo. Apenas descobrimos a luz da verdade quando a comparamos à sombra da mentira.

A campanha por punição legal às opiniões de Bolsonaro e a total ausência de um exame sério de suas opiniões é sinal que nos falta convicção moral. Tratamos a tolerância liberal como mero dado da realidade, não como uma conquista social que pode desaparecer se não for bem preservada. Quem a compreende de verdade, trabalha para permitir a existência da diversidade em opiniões.

Bolsonaro está errado porque não compreende o valor nem o funcionamento de uma sociedade aberta, plural e tolerante. Seus críticos que o querem calar estão errados pelo mesmo motivo.

Em uma sociedade autoritária, todas as opiniões têm que ser aceitas ou banidas, impostas ou proibidas. Na sociedade aberta, pessoas podem divergir pacificamente. Você não precisa aceitar as opiniões idiotas dos outros, mas também não precisa denunciá-los à polícia. Cada vez que ouvir algo lamentável, procure entender por que aquilo é lamentável. Tente convencer as pessoas da sua opinião. Se você tiver razão, a ignorância alheia lhe deixará mais convicto, e a sociedade mais robusta contra a intolerância.