Por que não existe partido de direita no Brasil?

Lacerda

Para cada três eleitores de esquerda no Brasil, há quase cinco eleitores de direita, diz a pesquisa do Datafolha divulgada pela Folha no dia 14/10.

A Folha divulga essa pesquisa da orientação política dos eleitores brasileiros o resultado parece surpreender. Se os eleitores de direita compõem uma maioria relativa com 49% do total, os de esquerda fazem 30% e os de centro, 22%, há duas perguntas óbvias a se fazer: 1) que conta é essa que soma 101%; e 2) por que então não existe partido de direita no Brasil?

Ideologias

A própria Folha levanta a dúvida:

Apesar de a pesquisa mostrar que a direita é maior que a esquerda no Brasil, pelo menos na cabeça dos eleitores, é raro encontrar um político que se declare abertamente de direita no país.

Sem avaliar os méritos das bandeiras de direita e esquerda, ou entrar no conteúdo das pesquisas, o fato é que essa proporção parece favorecer a direita ha anos. Não seria esse descompasso entre preferência eleitoral e representação política uma colossal falha de governo?

Sim e não.

Sim, porque grande parte do povo não parece ter representação política da sua posição ideológica.

E não, porque é impossível existir uma representação perfeita da vontade popular por meios democráticos para se dizer que um desvio dela seria uma "falha". Cientistas políticos econômicos vêm elaborando paradoxos democráticos há mais de duzentos anos. Em qualquer democracia, valores individuais coerentes resultam em escolhas coletivas incoerentes. Na linguagem de teoria de jogos, dirão que no jogo democrático existem múltiplos equilíbrios instáveis. Não há como se derivar logicamente um parlamento a partir do conhecimento das preferências eleitorais. Ou seja, a política é naturalmente falha. O que chamamos "falha de governo" é apenas o governo operando de acordo com o modelo teórico.

Os cientistas políticos populistas também já sabem disso há gerações, mesmo que por outra linguagem. E eles sabem uma coisa que cientistas políticos econômicos às vezes se esquecem: que, mesmo individualmente, preferências eleitorais não são pré-estabelecidas numa hierarquia estável. Elas são construídas por discursos capaz de articular publicamente certos antagonismos sociais.

Se cientistas políticos econômicos e populistas trocassem mais ideias, eles perceberiam que dizer que a política é um jogo de soma zero e que a política é naturalmente antagonística são duas maneiras de expressar a mesma dialética democrática moderna. William Riker percebia isso.

E Lord Acton também. O historiador britânico já dizia em 1862 que as duas grandes ideologias modernas seriam socialismo e nacionalismo. Um antagonismo de classes e um antagonismo de povos. Essa é uma maneira de se dividir esquerda e direita. O partido da nação é o de direita e o dos trabalhadores é o de esquerda. O sucesso dos partidos de direita no século XX esteve alinhado com o antagonismo nacionalista, seja pelo discurso anti-soviético americano, pelo anti-imigrante europeu e até pelo anti-europeu britânico.

Quando o antagonismo da classe se une ao antagonismo da nação, previa Acton, acabamos com o pior dos dois mundos. Os totalitarismos do século XX ocorreram quando nacionalismos europeus (russo, italiano, alemão etc) se uniram ao trabalhismo socialista.

No Brasil da primeira metade do século XX, Vargas foi quem melhor articulou esses dois antagonismos. Na segunda metade, e foi assim na América Latina em geral, a esquerda conseguiu encaixar o nacionalismo no discurso do seu socialismo militante (coisa que os militares já faziam na prática). Substituímos o antigo nacionalismo anti-português ou anti-europeu ou anti-hispânico pelo nacionalismo anti-americano.

A história não acaba aí. Além dos grandes antagonismos de classes e nações, esquerda e direita perceberam que havia outros antagonismos privados a explorar publicamente. Mas isso fica para depois. O que eu quero deixar por enquanto, além de esboçar parte de uma explicação porque a direita brasileira foi incapaz de articular antagonismos públicos que lhe servissem, é lembrar aos liberais como entender a ciência da política é importante para não ser derrotada por ela.

A tragédia liberal nas democracias modernas é avançar uma cooperação social unificadora por meio de jogos políticos antagonísticos. Ao rejeitar o antagonismo da esquerda, o liberal deve se cuidar para não cair no antagonismo de direita. Os populistas acreditam que essa tensão significará o definhamento do projeto liberal. Mas esse blog prefere acreditar, junto com o francês Frédéric Bastiat do século XIX, que a Grande Cooperação há de derrotar a Grande Ficção.