Por que os governantes fazem bobagens?

Essa pergunta sempre me intrigou. Por mais que eu haja ouvido na vida que governantes eram incompetentes, sempre me sobrava uma dúvida. Mas se chegaram lá, alguma competência eles hão de ter.

A notícia saiu no New York Times, em 28 de abril de 2009. Depois de uma reunião na Casa Branca na véspera, Obama anunciou que iria mandar mais militares para o Afeganistão. O vice presidente advertiu que havia o risco de os Estados Unidos entrarem num beco sem saída. O militares disseram que a guerra pode ser ganha desde que haja mais tropas. Qualquer semelhança com o Vietnã é mera memória fraca.

Agora, passados dois anos, o presidente Obama está numa sinuca de bico. Se tira tropas demais do Afeganistão, arrisca-se a ser acusado de “perder a guerra.” Se tira tropas de menos, corre o risco de não ser reeleito.

Mas nas reuniões de tomada de decisão, cada ministro ou conselheiro defende a verba de seu ministério ou a cadeira na qual senta.

Washington, Brasília e outras capitais são muito parecidas nesse aspecto. Já acumulei 22 anos seguidos de Brasília (houve mais dois na década de 70 que, como o Barão de Itararé, desconto da minha contagem de idade).

Depois de muito observar e conversar, consegui alguns resumos que compartilho com você.

  1. Governantes só falam com seus puxa-sacos ou com quem os puxa-sacos deixam que eles falem.

  2. Ninguém chega a falar com uma autoridade se os assessores não deixarem.

  3. Quase ninguém vai falar com uma autoridade à toa, sem ter o que pedir. No mínimo nomeação, promoção, remoção, isenção ou ajudão.

  4. Corolário, se depende da boa vontade da autoridade, quando inquirido pela autoridade vai dizer que a administração está uma maravilha. Se houver algum “senão”, será na área de interesse do visitante, e será algo que o visitante minimizará dizendo à autoridade que seu problema é simples e pode ser resolvido com uma penada, ou com um pouco de boa vontade do ministro tal ou qual.

  5. Mas, e os jornais? Autoridades não leem jornais? Em geral não. Quando muito, leem um jornal de sua terra natal e um periódico de circulação nacional (o que reduz sua leitura, na média, a 3 jornais). Afora isso leem resumos da imprensa preparados por assessores para os olhos das autoridades, ou ouvem assessores contarem a eles em reuniões quais são as notícias. Monteiro Lobato dizia que “quem contava um conto, aumentava um ponto”. Na burocracia quem conta três contos contra o governo, desconta nove pontos.

Conta-se que a Condessa Pereira Carneiro, presidente do Jornal do Brasil foi visitar Costa e Silva e, na saída da “audiência” (sempre tive birra desse termo, mas agora ressuscitaram um pior: “oitiva”), disse ao presidente que seu jornal ia fazer uma oposição moderada ao governo, ao que o presidente teria respondido: “Que oposição, minha senhora? Eu quero mesmo é elogio”. Si non é vero é benne trovatto.

Mas presumamos que as autoridades leiam jornais, com todo o interesse e lisura, será que eles não percebem o que leram?

Percebem, é claro. Contou-me um amigo que já trabalhou no Palácio do Planalto em três governos diferentes: o problema não é a leitura, mas com quem eles conversam.

Autoridades só conversam com assessores cuja tarefa é tornar sua vida confortável e livre de tensões. Assessores barram os chatos e são excelentes amortecedores de más notícias, sejam elas impressas, radiofônicas ou televisivas.

E os vilões nas conversas dos assessores com as autoridades são sempre os mesmos. Contou-me o meu amigo palaciano: são as famílias ou grupos donos de jornais e televisões que estão com alguma má intenção e publicaram a notícia como uma forma de chantagear o governo ou a autoridade. Prossegue o meu amigo palaciano, “depois de três meses de ler más notícias e de ouvir dos assessores que tudo não passa de uma conspiração de interesses para minar a autoridade do governante, existem duas alternativas. Ou a autoridade para de ler ou se continua a ler, para de pedir a opinião dos assessores porque não quer fazer o papel de bobo”.

De vez em quando escapa uma.

Você já imaginou leitor, convidado para um jantar de oito pessoas, no meio do jantar seu anfitrião diz uma enorme estultice? Uma coisa que todos os convivas sabem que é uma idiotice? A situação é constrangedora e a tendência e as boas maneiras nos dizem que devemos deixar passar para não fazer uma desfeita a quem oferece o jantar. E se o anfitrião for o presidente da república?

Os garfos param no ar e as facam se imobilizam. Em nenhum momento os músculos – todos – são mais desobedientes do que nessa hora. Ninguém que já participou de uma situação dessas é capaz de dizer quanto tempo dura a paralisia. A impressão é de que dura 45 minutos. Claro que são 45 minutos mentais. No relógio não devem passar de 5 ou 20 segundos. Nessa hora só tem voz a mulher do presidente. Pode variar do “não é bem assim, querido” ao “não diga bobagens, fulano.” Varia conforme os convidados, a primeira dama e o presidente. Há várias combinações possíveis.

Quem particpou dessas situações, em geral, guarda segredos, de polichinelo, é claro. Contam-na às pessoas certas, mas ninguém publica isso.

Antes que o leitor fique achando que fui eu o protagonista dessa história, digo que errou. Acho que fui a única pessoa que não foi convidada para um jantar com o presidente da república, e como não convidado, obviamente, não fui. Mas como alguém que foi abordadado por equipes de rádio e televisão disse, antes de entrar no palácio, que eu seria um dos convidados (por falta de informação, é claro).

Eu só soube do jantar e de minha presumida participação no dia seguinte. As perguntas de todos eram conspiratórias. O que eu tinha a contar do que “o homem” disse. Eu, com toda a honestidade, respondia que não sabia do que estavam falando. Aos poucos a verdade pública veio à tona: havia saído num dos noticiários noturnos da TV que eu era um dos convivas de um jantar presidencial. De nada adiantou dizer: um, que não havia sido convidado (e portanto não havia ido); dois, na véspera, gripado eu havia tomado um chá de alho e ido para a cama às 19:30.

Todos queriam saber o que havia ocorrido. Passei por mentiroso para pelo menos 30 repórteres, alguns dos quais bons amigos que não digeriam a informação que eu não havia ido ao tal jantar.

Pois bem, não tenho a menor ideia do que lá aconteceu e tampouco do cardápio. Não sei se o presidente disse bobagens ou coisas sensatas. O fato é que, de todos os que foram, ninguém abriu o bico. Não se sabe o que ouviram ou o que disseram, se é que algo.

Para terminar, meu caro leitor, não importa o que alguém diz, importa o que os outros ouvem. Mas, mais do que tudo, importa como o próprio autor ouve o que ele mesmo disse.

Qualquer coisa que o presidente diga, é sempre dito a ele que foi um sucesso, que foi publicada na imprensa do mundo inteiro. Que o primeiro ministro britânico tal ou qual nunca esqueceria algo assim.

No dia seguinte as autoridades acordam tranquilas porque os assessores já estão a postos para gentis comentários, e zelando para que nada de ruim chegue aos ouvidos de suas excelências.

As reuniões do dia seguinte serão de congratulações mútuas e o dia passará sem maiores incidentes, porque ninguém é de ferro.