Praxeologia versus positivismo

Parece que o paradigma predominante da metodologia científica nas ciências sociais tem pouco a ver com a realidade da nossa vida social, a prática política e a administração pública. Parece que os próprios universitários, políticos e administradores não se dão conta dessa conexão. Mas na verdade o uso do certo modelo epistemológico mostra-se crucial para os resultados gerados por uma pesquisa, bem como para a maneira como se pratica política e para a forma da administração pública. Ainda mais: uma sociedade livre não pode emergir quando domina uma epistemologia que elimina a ação humana.

Hoje em dia, o positivismo lógico do Círculo de Viena (Wiener Kreis) representa a metodologia dominante nas ciências sociais. Esta abordagem epistemológica nasceu em Viena, Áustria, nos anos 20 do século passado e foi implantado nas universidades americanas depois da emigração de quase todos os membros deste círculo para os Estados Unidos nos anos 30 e 40. Depois do fim da segunda guerra mundial, a metodologia do circulo de Viena se disseminou por outras partes do mundo.

Nesta cidade de tempestades intelectuais, além do círculo havia também a escola de Viena (“Wiener Schule”): a escola austríaca de economia, que era bem diferente do positivismo lógico. Sua teoria se baseia no conceito da “ação humana”. Em suas Notes and Recollections, declarou Ludwig von Mises (1881-1973): “o que distingue a Escola Austríaca e lhe garantirá fama eterna é sua doutrina de ação econômica, em contraste a outra de equilíbrio econômico ou estática”.

Mises chamou esta abordagem metodológica de “praxeologia”. A praxeologia é a elaboração do princípio da ação humana em suas ramificações socioeconômicas. Como tal, a teoria econômica austríaca enfrenta a ação humana em sua complexidade, visando criar, nada mais nada menos, do que uma teoria geral da sociedade baseada nesse princípio.

Do princípio da ação humana surgem categorias centrais como os conceitos de meta, medida, causa, efeito e tempo, por exemplo. A ação humana é a escolha ativa dos fins e das medidas em uma avaliação subjetiva. Na perspectiva da praxeologia, ela é proposital. Para uma ação ser qualificada como humana, o ato precisa ser uma atividade consciente da escolha de medidas para alcançar objetivos.

Os conceitos constitutivos da praxeologia são categorias a priori, ou seja, antecedem a experiência. Esses conceitos são necessários para captar a realidade. Antes de pesquisar, antes de analisar a realidade de modo empírico, é necessário conhecer previamente categorias centrais da vida sócio-econômica como: custo e benefício, lucro e prejuízo, e muitos outros conceitos.

A abordagem da teoria da ação humana é fundamentalmente diferente das teorias do comportamento (“behavior”). Comportamento é um conceito determinístico ou probabilístico, ele não deixa espaço para a tomada de decisão consciente humana. No contexto do “homem econômico”, por exemplo, a racionalidade da lógica de escolha está contida nas premissas. A modelagem do homem econômico encerra teoricamente a racionalidade na dedução lógica, e empiricamente o behaviorismo estuda o comportamento sob a premissa do determinismo físico-psicológico.

Enquanto, se de facto o ato desvia do modelo teórico, quase necessariamente se consta irracionalidade dos agentes. Nesse sentido, a teoria moderna de comportamento torna-se uma doutrina de terapia. Por causa da ausência de realismo, esses modelos de comportamento descobrem uma deficiência humana depois da outra. Uma abordagem teórica do comportamento se torna necessariamente uma teoria de intervencionismo curativo. Essas terapias raramente funcionam.

As disciplinas que aplicam teorias comportamentais servem como porta de entrada para intervenções governamentais e políticas públicas quem visam "corrigir" esse comportamento humano que a teoria positivista diagnostica como falso, errado, insano, ou simplesmente irracional. O ser humano na visão do behaviorismo e, por conseguinte, da sociologia, da economia e da psicologia é transformado em um objeto de manipulação e de intervencionismo econômico, psicológico e social.

Em contraste com o positivismo do tipo behaviorista, as teorias baseadas na ação humana abrem o caminho para a liberdade, para a autonomia individual e para a responsabilidade pessoal. Perseguir um objetivo através de escolhas conscientes (ainda que errôneas) é característica básica da existência humana. Com essa base se abre categoricamente o universo da ação humana.

Em vez de optar pelo reducionismo e pela simplificação extrema, a praxeologia escolhe respeitar a complexidade da realidade socioeconômica e da contingência da ação humana. Nesse sentido, a teoria econômica austríaca é mais moderna do que qualquer das outras escolas econômicas, apesar do fato de ser historicamente em suas raízes uma das mais antigas teorias econômicas, e talvez a mais antiga escola dos estudos econômicos.

A chamada "teoria econômica clássica", especialmente a teoria econômica na tradição de David Ricardo (1772-1823) e seus sucessores, presume que para a teoria econômica se tornar "científica" ela deve ser tão "determinista" quanto a física de Newton. No entanto, enquanto a física moderna já abandonou em grande parte esse paradigma newtoniano, essa metodologia ainda domina grande parte da profissão das ciências sociais. Uma consequência desse atraso é os resultados das pesquisas desse tipo serem muitas vezes inúteis e, o pior de tudo, as receitas para a terapia serem não somente inadequadas para solucionar os problemas atuais, mas prejudiciais para as pessoas que as recebem do poder público.

Diferente das abordagens comportamentais nas ciências sociais, a teoria da ação humana é uma doutrina de liberdade de escolha, esforço individual e responsabilidade pessoal. A praxeologia é uma doutrina que não reivindica poderes sobrenaturais de perfeição para os seres humanos. Ela representa uma abordagem baseada no realismo e no reconhecimento da complexidade e contingência da existência humana. Para avaliar um problema socioeconômico, a escola austríaca de economia evita a aplicação de critérios externos como otimização e equilíbrio.

A praxeologia representa uma teoria geral da ação humana. Em vez de limitar a atividade humana em uma caixa preta, como é o caso do positivismo moderno na ciências sociais, ela tem como seu tema central de pesquisa a ação humana. Na perspectiva da praxeologia, a essência da economia e da sociedade não é determinada por agregados que mais ou menos se relacionam uns com os outros, mas por todos os fenômenos socioeconômicos que são inerentemente fenômenos da ação humana. Assim, em vez de procurar acertar os determinantes do “equilíbrio”, a escola austríaca estuda o mercado como processo.

Uma ação humana é tautologicamente racional, baseada na avaliação consciente. Isso não exclui o fato de que metas e medidas podem ser mal escolhidas e que sejam equivocadas no sentido técnico ou à luz de outros critérios externos. O pensamento humano é a ação humana interior e, como a ação na realidade, os pensamentos humanos também são imperfeitos e incompletos. Nesse sentido, a aplicação da metodologia da ação humana promove tolerância junto com liberdade.

A crise das ciências sociais hoje, o fracasso de seus resultados e a problemática de suas terapias é uma das consequências da aplicação de uma metodologia inadequada para a vida humana. O positivismo lógico não é só altamente duvidoso como metodologia da pesquisa, mas é ainda mais precário porque os resultados gerados através dessa epistemologia estão essencialmente em contraposição à liberdade individual e a uma sociedade humana. Diferente da praxeologia, o positivismo produz um universo intelectual de intervencionismo, controle e terapia. O positivismo lógico é a ideologia política do caminho da servidão camuflada como “ciência”.

Um dos passos mais cruciais no caminho para obter uma sociedade livre é o combate ao positivismo lógico. Parece pasmoso, mas disseminar o conhecimento sobre a conexão entre positivismo lógico e a repressão serve como um destes passos, além de elaborar cada vez mais apuradamente o conteúdo da praxeologia. Para haver uma sociedade livre, é preciso substituir o positivismo pela praxeologia. A praxeologia e a liberdade possuem uma ligação coerente e fundamental. Enquanto os resultados obtidos da pesquisa positivista promovem soluções intervencionistas e repressivas, a praxeologia, por sua natureza, abre a porta para a sociedade livre.

Rechaçar o positivismo significa abandonar as abordagens deterministas e reducionistas em favor de um paradigma que estuda a ação humana no contexto de sua complexidade em frente da contingência do ambiente da existência humana.