Sánchez na prisão a céu aberto

Há algumas semanas, várias agências de notícias noticiaram o abrandamento das leis emigratórias cubanas. A extinção da tarjeta branca – a permissão de saída que custava 150 dólares – e o fim da exigência da carta convite foram vistas como mais um sinal de aprofundamento das reformas promovidas pelo governo do ditador Raúl Castro.

Poucos dias depois, voltaram ao assunto para esclarecer que o abrandamento, na realidade, não era bem assim: a reforma não beneficia a todos os cubanos igualmente. Além de pessoas com curso superior, detentores de cargos de chefia, atletas de alto rendimento e profissionais em atividades que o Estado julga vitais, as autoridades continuam tendo o poder de barrar a saída de quem desejarem, baseando a decisão no “interesse público” ou na “segurança e proteção da informação oficial”.

A vida deve continuar difícil para Yoani Sánchez, por exemplo. A blogueira que já teve mais de 20 pedidos de saída negados pelas autoridades cubanas e que aguarda há meses autorização para vir ao Brasil. No início de 2012, ela gravou um vídeo em que apelava às autoridades brasileiras para que empenhassem na garantia de sua saída de Cuba. A presidente Dilma Rousseff confirmou que o Brasil concedeu visto à blogueira, mas que os demais passos devem ser dados pelo governo da ilha.

Yoani Sánchez é convidada do cineasta baiano Dado Galvão, que desde 2010 tenta trazê-la ao Brasil para o lançamento de seu documentário Conexão Cuba-Honduras. Na última semana, Dado e alguns amigos fizeram uma vaquinha pela internet para comprar passagens para que Sánchez possa vir ao Brasil (quando/se obtiver a permissão necessária). A revista Época destacou a entrega da passagem em Cuba.

Pessoalmente, sou a favor do livre movimento de pessoas. Acredito que há mais benefícios do que malefícios na livre migração. Acredito também que mesmo sendo impossível termos hoje fronteiras abertas em todo o mundo, existem formas mais humanas (pdf) do que as atuais de lidarmos com a questão da imigração -- principalmente daqueles que deixam seus países em busca de uma vida melhor para suas famílias. Reconheço, no entanto, que alguns possuem preocupações relevantes e que existem bons argumentos contrários à minha posição. Aceito a discordância e acredito que o debate pode ser educativo e interessante.

Entretanto, parece-me óbvio que restringir a saída de alguém do seu país é outro assunto, muito mais grave, e que seja mais complicado encontrar argumentos humanamente razoáveis para defender uma política tão brutal.

Um país que não permite que seus cidadãos visitem seus familiares ou que busquem uma vida melhor no exterior jamais será um paraíso socialista -- ou mesmo uma terra de homens e mulheres livres. Se os ditadores tiverem sorte, ele será uma prisão de segurança máxima.

Talvez a espera de uma rebelião.