"Saques, pancadaria e produção ou "Por que a Economia não é uma ciência chata"

Muitos leitores e leitoras desta garrafinha podem se perguntar sobre o que faz um economista. E, para adiantar, eu posso dizer: nada do que a maioria das pessoas pensa. Na verdade, esta pergunta incômoda - principalmente para o pobre estudante de Economia - refere-se a uma outra que é: qual é o objeto da Ciência Econômica?

Para que você não se perca, vou começar com a definição mais antiga, a de Lionel Robbins. Para ele, a economia seria a "ciência que estuda a administração de recursos escassos". Para começar, qualquer recurso é escasso - e não é por causa do neoliberalismo-globalizante-excludente. É simplesmente porque, se temos de escolher, é porque não estamos satisfeitos. Se eu pergunto a você quantos carros você desejaria ter e você me diz que gostaria de ter 3 carros, então, para você, o carro é um recurso escasso.

Note bem: você quer mais carros do que tem atualmente, logo existe uma "escassez" que é diferente do excesso de demanda que existe quando um monte de gente vai até a fábrica pedir para que aumentem a produção de carros. Em inglês os caras dizem que todos os bens são "scarce" (escassos), o que não significa que mesmo que você resolva a "shortage" (escassez) momentânea eles deixarão de ser escassos (scarce). Assim, não é preciso que haja uma baita recessão para que você tenha escassez de carros. O caráter "scarce" do bem, diz respeito aos seus desejos, não ao que acontece quando 23 compradores desejam 22 carros (imagine todos no mesmo pátio da fábrica).

Agora, imagine que um deles queira mais um carro. Pronto, para este cara, existe escassez ("scarcity") de carros. Se cada um dos outros 22 também pensar assim, mesmo que haja um equilíbrio entre oferta e demanda de carros. Bem, um dia destes eu volto nisto, se o leitor(a) quiser. O fato é que, em muitas traduções de livros-textos de Economia, infelizmente, o aluno passa os olhos sem perceber esta diferença importante.

Ok, esta é a definição de que não gosto. Por quê? Porque ela supõe que o sujeito só pense em custos ao comprar tomates e não quando decide para onde ir no final de semana ou quando troca de namorada(o). Outra definição, de Alfred Marshall, é a de que "a economia trata dos assuntos ordinários da vida, ligados aos negócios". Melhorou um pouco, certo? Embora você possa se preocupar com carros, também pode tentar entender um pouco mais de outros assuntos. De outra forma, você poderia usar esta definição como desculpa para se meter no departamento de marketing da firma... Mas ainda assim, ela não me satisfaz. Dá a impressão de que você desenvolve todo um modelo de comportamento de um indivíduo para, na verdade, comprar laranjas e tomates.

Outra definição é a de Ludwig von Mises: "economia é o estudo da ação humana". Hayek (Friedrich A. von Hayek), um dos mais profícuos pensadores (não só um economista), talvez tenha sido um dos caras que levou isso mais a sério. Mas quem difundiu mesmo esta definição foi James M. Buchanan, um dos primeiros a dizer: "ok, amigos, todos sabemos que a economia estuda a alocação de recursos pelo mercado. Mas e se a alocação de recursos feita por outros meios como, por exemplo, pelo sistema político? Se o mercado falha em alocar os bens e serviços algumas vezes, isto não leva, necessariamente, à afirmação de que o governo deva corrigir o mercado. De fato, o governo pode trazer novos danos ao funcionamento do mesmo. Devemos,

portanto, estudar também as falhas da ação do governo (dentre outras instituições alternativas)". Lógica simples, não?

Bem, não só Buchanan, mas também o filho de Milton Friedman, David Friedman, e Gary Becker têm sido dois dos caras que mais me ensinaram que economia não é apenas a chata ciência de aumentar (diminuir) a oferta de moeda (ou o deficit público) para aumentar a "renda agregada", de forma descolada do sistema político e social. Eu acho esta definição bem adequada à ciência econômica. Ainda assim, para mim, falta algo. Falta, porque existem situações nas quais você pode fazer uma escolha mais simples: você pode escolher entre produzir e roubar. Gary Becker, ("Economia do Crime"), embora tenha sempre enfocado este ponto, limita-se a situações nas quais os direitos de propriedade são bem definidos ou, pelo menos, quando existe um sistema de cumprimento das leis já estabelecido.

Mas....e quando isto não existe? E quando a sociedade é anárquica (um dia a gente define "anarquia", em outra garrafinha...)? É aqui que entra o conceito mais interessante (e recente) de nossa Ciência, oriundo da mente brilhante de Jack Hirshleifer.

Para ele, a economia deveria ser definida como "o estudo da alocação dos recursos das pessoas entre duas atividades básicas: produção e violência". Isto porque, como dito acima, bens podem ser obtidos de duas formas: ou você trabalha para obtê-los ou simplesmente os toma/rouba de terceiros. Não menospreze, amigo(a)/inimigo(a) leitor(a), este conceito. Apenas para pensar em um exemplo, considere a era da colonização brasileira na qual duas sociedades distintas tinham idéias distintas sobre "de quem era a terra".

Sendo um economista equipado com as técnicas modernas da Teoria Econômica, Hirshleifer retoma, com sua definição, conceitos de gente que teve bons insights mas que nunca foram bem sucedidos em fazer Ciência Econômica - o que não quer dizer que tenham sido péssimos conspiradores ou amigos dos príncipes - como Karl Marx ou Machiavelli. O legal neste conceito é que ele consegue ir além (mas não das sandálias, que é coluna do outro Shikida) da nova tendência de economistas de primeira linha (como Douglass North) de considerar que os mercados não funcionam num vácuo institucional (isso já dizia Hayek há muiiiito tempo...), o que dá margem a estudos de instituições alternativas, etc.

Ele permite que estudemos como as trocas ocorrem (se é que ocorrem!) em situações nas quais as instituições ainda não estão bem definidas. Situações de conflito e de violência. Há um texto genial, na página dele, e que também está no seu novo livro, "The Dark Side of the Force - Economic Foundations of Conflict Theory", Cambridge Press, 2001.

Por enquanto, leitor(a), fique com este meu entusiasmo com o mundo acadêmico. Em uma das próximas garrafinhas, contudo, falarei da sujeira embaixo do tapete do mesmo ou, como de hábito, contarei alguma outra história menos "(d)tensa".

Abraços sem violentos apertões,

Cláudio

O link para o texto do prof. Hirshleifer que foi reproduzido como introdução do seu livro é o que se segue. E você não precisa saber muita economia para ler o texto. Em outras palavras, nenhuma matemática aparente (mas escondidinha, em meio a tanta erudição...): http://www.econ.ucla.edu/people/papers/Hirshleifer/Hirshleifer172.pdf