Viena e Chicago: Um conto de duas escolas

Vien

por Mark Skousen

“A Escola Austríaca foi importante para o desenvolvimento da economia moderna, porém, o seu papel prático, atualmente, é bem reduzido.”

—Sherwin Rosen, Universidade de Chicago[1]

Desde a sua inauguração, a FEE – Foundation for Economic Education – se associou a duas escolas do livre mercado: a Escola Austríaca, de Ludwig Von Mises e, com menor intensidade, à Escola de Chicago, de Milton Friedman. Mises, depois de trocar Viena pela cidade de Nova York, se aproximou de Leonard Read, fundador da FEE. Ele palestrava freqüentemente na sede da fundação, em Irvington-on-Hudson, e escrevia regularmente para a The Freeman.

Read também desenvolveu uma relação com Friedman, que, junto com George Stigler, seu colega da Universidade de Chicago, escreveu uma das primeiras publicações da FEE. “Roofs or Ceilings?” [Telhados ou tetos?], publicado em setembro de 1946, afirmava que os controles sobre os aluguéis no pós-guerra eram contraproducentes e deveriam ser eliminados. O panfleto da FEE era altamente controverso para seu tempo e foi atacado por ambos os lados do espectro político. Ayn Rand chamou o panfleto de “propaganda coletivista” e “a coisa mais perniciosa já publicada por uma organização abertamente conservadora”, já que os economistas eram favoráveis à eliminação dos controles sobre os aluguéis tendo por base questões práticas e humanitárias e não a defesa dos “direitos inalienáveis dos proprietários de imóveis.” ²

Em uma crítica amplamente desfavorável publicada na American Economic Review, Robert Bangs atacou Friedman e Stigler, declarando que “a remoção dos controles sobre os aluguéis nesse momento não solucionaria os problemas habitacionais, apenas serviria para facilitar o aumento da desigualdade.” ³

Claramente, ambas as escolas de defesa da economia do livre mercado, a Escola Austríaca e a de Chicago, eram bastante impopulares no início do período pós-guerra; porém, hoje em dia, apenas uma geração mais tarde, suas idéias estão representadas em quase todos os livros didáticos e departamentos de Ciências Econômicas.

 

Por que a Escola de Chicago adquiriu tanta influência?

A Escola de Chicago, liderada por Milton Friedman, ganhou bastante reconhecimento principalmente entre os economistas. Os adeptos da Escola de Chicago ganharam uma dúzia de Prêmios Nobel, desde a criação do prêmio em 1969.

Por que a Escola de Chicago obteve mais sucesso que a Escola Austríaca? Bem, ambas são favoráveis à propriedade privada, à baixa carga tributária, ao governo mínimo, ao livre mercado e à moeda forte. Embora tenham diferenças de metodologia e, ocasionalmente tenham diferenças em relação às suas políticas (por exemplo, os austríacos apóiam tanto a liberdade dos Bancos Centrais, quanto o padrão ouro, enquanto os monetaristas de Chicago defendem uma política de controle sobre o dinheiro emitido pelo governo), elas possuem mais semelhanças do que diferenças. Tanto Mises quanto Friedman foram membros fundadores da Sociedade Mont Pelerin. É desagradável perceber que “misesianos” e “friedmanistas” geralmente vêem as políticas um do outro como políticas rivais, ao invés de políticas complementares.

 

As vantagens do trabalho empírico

Historicamente, Friedman e seus pupilos tomaram um caminho diferente daquele percorrido pelos austríacos. Eles dão destaque ao trabalho empírico quantitativo utilizado para testar as suas teorias. Também publicaram a maior parte de suas descobertas em revistas profissionais e em editoras de universidades famosas. Vêem-se como parte de um campo profissional. Seus resultados eram tão impressionantes que eles, gradualmente, passaram a atrair a atenção do resto da disciplina. Veja, por exemplo, o monumental livro de Milton Friedman (escrito com Anna J. Schwartz), Monetary History o fthe United States, 1867-1960 [A história monetária dos Estados Unidos, 1867-1960], um estudo patrocinado pelo National Bureau of Economic Research e publicado pela Princeton University Press, em 1963. Com uma pesquisa meticulosa, ele demonstrou como o Banco Central americano permitiu que a oferta de moeda fosse reduzida em um terço entre 1929-1933. Seu trabalho estatístico deu um forte embasamento à idéia de que foi o governo, e não o capitalismo da livre iniciativa, que causou a Grande Depressão. O estudo quantitativo de Friedman fez mais para restabelecer a fé na livre iniciativa do que fariam milhares de sermões sobre as virtudes da liberdade econômica. A abordagem aplicada por ele foi bem mais eficiente na destruição dos princípios básicos do keynesianismo do que aquelas utilizadas por tratados filosóficos. Por essas contribuições às Ciências Econômicas, Friedman recebeu o Prêmio Nobel em 1976.

A aplicação empírica feita por Friedman de suas visões acerca do livre mercado exerceu influência sobre os think-tankse sobre a política prática. O milagre econômico chileno (o controle da inflação, o corte de impostos, a privatização da previdência) é, em grande parte, resultado das recomendações políticas dos “Chicago Boys”, economistas que tinham sido alunos de Friedman. O foco do Cato Institute (e de outros think-tanks que defendem o livre mercado) sobre os estudos de caso tem como base os métodos de pesquisa de Friedman.

 

O outro caminho dos austríacos

Por outro lado, os austríacos não acreditam que a teoria possa ser derivada ou testada empiricamente. O método de Mises, a praxeologia, deduzia princípios econômicos logicamente, a partir do axioma de que os serem humanos agem – ou seja, tentam melhorar a sua realidade. Os economistas austríacos preferem demonstrar as suas teorias verbalmente, ao invés de matematicamente. (Mises abriu mão de usar até mesmo gráficos em suas bases metodológicas.)

Hayek, apesar de suas diferenças metodológicas em relação a Mises, advertia que a economia não deveria imitar a física. Ele desenvolveu uma apresentação gráfica da teoria austríaca dos ciclos econômicos, porém, não ofereceu nenhuma prova estatística. Henry Hazlitt dissecou a Teoria geral de Keynes com argumentos firmes e habilidosos, mas, sem uma análise quantitativa, seu Failure of the ‘New Economics’ (D. Van Nostrand, 1959) passou despercebido. Israel Kirzner estabeleceu um centro austríaco na Universidade de Nova York, mas limitou suas análises à pura teoria. Murray Rothbard utilizou os dados históricos para ilustrar a teoria austríaca dos ciclos comerciais, conforme aplicada em America’s Great Depression [A Grande Depressão da América]. Mas o ceticismo em relação à matemática, à econometria e à análise regressiva causou danos ao prestígio da Escola Austríaca aos olhos dos outros economistas.

 

A próxima metade de século pertence a...

Acabamos de entrar num novo milênio, mas para onde vamos a partir de agora? Peter Drucker, um especialista em gestão, previu corretamente que a “economia do futuro” deverá enfatizar a “microeconomia” e, em particular, a produtividade e a formação de capital. “O capital é o futuro”, declarou. (4) Acredito que a Escola Austríaca se adéqua perfeitamente a esse papel. Com o foco sobre o empreendedorismo, a teoria do capital e o subjetivismo – as bases da microeconomia – a economia da Escola Austríaca tem um futuro brilhante e poderá até eclipsar a Escola de Chicago, principalmente caso a Escola de Chicago (conforme demonstrou na teoria neoclássica e na teoria das expectativas racionais) se concentrar exageradamente em modelos matemáticos entediantes.

Recentemente, os economistas da Escola Austríaca têm se ocupado da ciência aplicada e de estudos de caso, aplicando suas teorias ao comportamento organizacional, às finanças, ao comércio e às políticas governamentais. Certamente, as análises estatísticas têm suas limitações, conforme apontou Hayek em seu discurso “The Pretence of Knowledge” [A aparência do conhecimento], proferido ao receber o Prêmio Nobel.Porém, isso não torna válida a visão subjetivista radical (defendida, entre outros, por Lachmann) de que nada é verificável.

 

Exemplos de economia aplicada pela Escola Austríaca

Exemplos recentes de estudos de caso e estudos quantitativos, feitos por economistas simpáticos à economia da Escola Austríaca, incluem os esforços para a privatização, de Madsen Pirie e Eamonn Butler, do Adam Smith Institute, as medidas para a reforma da moeda, do economista Steve Hanke e o trabalho empírico do historiados Robert Higgs e dos economistas Richard K. Vedder e Lowell Gallaway. (5) George Selgin e Lawrence White fizeram um trabalho histórico abrangente sobre a liberdade dos Bancos Centrais, tanto nos Estados Unidos quanto no exterior. (6)

Merece aplausos o recente trabalho empírico Economic Freedom of the World, 1975-1995 [A liberdade econômica no mundo], realizado por James D. Gwartney, Robert A. Lawson e Walter E. Block. Os autores, representantes das duas grandes escolas da economia do livre mercado, demonstraram estatística e graficamente a forte correlação entre a liberdade econômica e a taxa de crescimento econômico. Na introdução, Milton Friedman repete Von Mises ao afirmar que “não é necessário construir um índice de liberdade econômica para que acreditem que existe uma relação estreita entre a liberdade econômica e o nível de crescimento econômico”. Porém Friedman, sempre um economista quantitativo, reafirma que um gráfico vale mais que mil palavras. “Nenhuma descrição verbal qualitativa pode ter o poder de um gráfico”, conclui. (7)

À medida que um número cada vez maior de estudantes simpáticos à Escola Austríaca adquirem conhecimentos econométricos, podemos esperar mais avanços na aplicação da teoria austríaca dos ciclos comerciais. A dissertação de doutorado de Charles Wainhouse, na NYU, foi a primeira a testar a teoria austríaca dos ciclos econômicos utilizando séries temporais, e outros já seguem seus passos. (8)

Se os austríacos continuarem a empregar a maior parte das suas energias no debate de abstrações, serão, para sempre, uma escola obscura, que passará seus dias pregando para convertidos. Como afirma Peter G. Klein, professor da Universidade de Geórgia, “Se os austríacos se concentrarem na metaeconomia e tentarem forçar as principais correntes do pensamento econômico a repensar as questões abstratas da epistemologia, não chegarão a lugar nenhum.” (9)

 

  1. Sherwin Rosen, “Austrian and Neoclassical Economics: Any Gains From Trade?,”Journal of Economic Perspectives (Outono, 1997), p. 139. Ver também a resposta “perceptive” de Leland Yeager, “Austrian Economics, Neoclassicism, and the Market Test,” pp. 153–165.

  2. Letters of Ayn Rand, editado por Michael S. Berliner (Dutton, 1995), p. 326. Nessas cartas reveladoras, Rand se oferece para ser uma “editora extra-oficial” das publicações de Read, mas é recusada. (p. 335).

  3. Robert Bangs, crítica de “Roofs or Ceilings?”, American Economic Review, Junho, 1947, pp. 482-3

  4. Peter Drucker, Toward the Next Economics and Other Essays (Harper & Row, 1981), p. 10.

  5. Robert Higgs, “Wartime Prosperity? A Reassessment of the U.S. Economy in the 1940s,” The Journal of Economic History (March 1992), pp. 41–60; Richard K. Vedder and Lowell Gallaway, Out of Work (Holmes & Meier, 1993). Ver também seu artigo, “The Great Depression of 1946,” Review of Austrian Economics 5:2 (1991), pp. 3–31.

  6. Ver, por exemplo, Lawrence H. White, Free Banking in Britain (Cambridge University Press, 1984); George A. Selgin, The Theory of Free Banking (Rowman & Littlefield, 1988) e Selgin, Banking Deregulation and Monetary Order (Routledge, 1996).

  7. Milton Friedman, “Foreword,” Economic Freedom of the World, 1975–1995, de James D. Gwartney, Robert A. Lawson, e Walter E. Block (Cato Institute, 1996), pp. vii–viii.

  8. Charles E. Wainhouse, Hayek’s Theory of the Trade Cycle: The Evidence from the Time Series, dissertação de Ph.D., New York University, 1984. Ver também William A. Butos, “The Recession and Austrian Business Cycle Theory: An Empirical Perspective,” Critical Review 7:2–3 (1993), pp. 277–306, e Mark Skousen, The Structure of Production (New York University Press, 1990).

  9. Entrevista em Austrian Economics Newsletter (Mises Institute, Winter, 1995), p. 7.

 

* Publicado originalmente em The Freeman.