Voando com os "Fiscais do Sarney"

Como determinar um preço justo para determinado produto? Por séculos, economistas debateram quais fatores influenciariam a formação e a variação dos preços, mas só agora, em 2012, alguém conseguiu determinar com perfeição os preços de alguns produtos. A autora da façanha não é uma intelectual, mas a Infraero, a estatal que (ainda) administra mais de 60 aeroportos brasileiros.

Ela descobriu, por exemplo, que o preço justo por uma porção com 6 pães de queijo é 3 reais. Um café deve custar R$ 1,60.

Se o preço de um produto é 10 reais no estabelecimento X, como ele poderia ser 20 reais no estabelecimento Y?, perguntaria a Infraero.

Para remediar a disparidade entre os preços cobrados nas ruas do país e os preços cobrados nos seus aeroportos, a empresa anunciou que implementará até o fim do ano, em 11 aeroportos do país, "lanchonetes populares" cujos produtos terão os preços controlados.

Ao invés de melhorar a estrutura dos aeroportos e evitar atrasos e interrupções no serviço, a Infraero prefere controlar os preços dos alimentos vendidos nas lojinhas, para que as classes C e D possam desfrutar dos atrasos com mais conforto. Os aeroportos parecem estar ótimos: o problema é o preço do quindim.

Com a chegada das classes C e D ao saguão de embarque, a Infraero decidiu agir para que os novos passageiros possam pagar pelo sanduíche: até o fim do ano, 11 aeroportos do país, entre eles os cariocas, terão uma lanchonete “popular”, com preços baixos e controlados. São vários os exemplos de preços estratosféricos (...). À espera do voo de volta a Porto Alegre, Maria Anália Damasceno desistiu de comer um quindim: o doce custava R$ 9 em uma lanchonete no Santos Dumont. Ela preferiu pagar R$ 14 em um misto quente e um refrigerante, mas continuou achando caro: — Estou acostumada a comprar o quindim por R$ 4,50 lá na minha cidade.

Para provar os preços absurdos cobrados nos aeroportos, o jornal O Globo elaborou uma lista dos preços dos produtos nos aeroportos e fora dos aeroportos. Feita para demonstrar como são abusivos os preços cobrados nos aeroportos, a lista compara laranjas com bananas. Vejamos, por exemplo, as três maiores variações de preços, que são verificadas em estabelecimentos diferentes, comparando os preços de uma loja de conveniência do Galeão às Lojas Americanas.

Para derrotar toda a teoria econômica que mostra a impossibilidade de se controlar preços à canetadas, basta um único movimento por parte da Infraero: a reconvocação dos fiscais do Sarney. Ao imprimir o seu bilhete, o passageiro será obrigado a imprimir também uma cópia da tabelinha -- cuja posse será obrigatória nos aeroportos administrados pela estatal.

Para matar o tempo antes do embarque, o passageiro visitará os diversos estabelecimentos do aeroporto fiscalizando preços, fechando lojas e dando voz de prisão aos gerentes que exibirem prateleiras vazias ou cobrarem ágio.

Deu certo nos anos 1980, dará certo no século XXI.