Voto de lista: mais um estelionato contra o eleitor

Homens de negócio, quando ser reunem, rapidinho, começam a conspirar contra consumidores. É assim que se formam cartéis e monopólios. Pensadores tão diferentes quanto Adam Smith, Karl Marx e Milton Friedman, quando se encontram nas esquinas da hitória, batem animados papos sobre o assuno e, o que é mais supreendente, concordam entre si.

Políticos, como os homens de negócio, podendo, conspiram contra eleitores porque sabem uma coisa que os eleitores não sabem: a chance de um voto individual fazer diferença na eleição — ou não — de um candidato, é quase igual à chance que alguém tem de acertar a mega sena: próxima de zero.

Volta e meia o assunto volta a circular nos alambiques do poder, tentando mudar o atual sistema proporcional, para um em que a possibilidade de você influir na eleição de um parlamentar deixará de ser próxima de zero. Passará a ser zero mesmo. Redondinho!

No sistema atual, pode ser que seu candidato não seja eleito, mas se você votou nele, o voto vai para ele e para o partido. Ou seja, se muitos eleitores votarem como você o seu candidato poderá acabar sendo eleito. Caso contrário o voto cai na cesta do partido, mas a ordenação de quem vai realmente para a cadeira legislativa terá sido resultado da escolha de eleitores que, em princípio, votam autonomamente e a possibilidade de uma conspiração entre eles é estatísticamente muito improvável. E mais: a quantidade de votos dados a cada candidato determina também a ordem de chamada dos suplentes em caso de impedimento dos titulares.

Se aprovarem o sistema do voto de lista, esse direito do eleitor acaba. Quem escolherá, tanto a lista de candidatos, quanto a sua ordem de precedência serão os caciques do partido. Índios não terão voz, nem voto. Os votos irão para o partido e o ordenamento de quais serão eleitos já terá sido decidida pelos "donos dos partidos." Assim, se você não for um cacique, perca a sua esperança. Aí mesmo é que você não será representado. Se for, terá sido por mero acaso.

Os políticos e alguns intelectuais gostam de defender esse sistema argumentando que ele fortalece os partidos. Mas, meu caro leitor, a pergunta importante para você é: o que você ganha com partidos mais fortes? Nada!

Hoje você provavelmente não se lembra em quem votou para deputado federal ou estadual na última eleição. Se você não se lembra, isso, provavelmente, significa que você não se sente representado.

Se a mudança passar, você não terá nem o prazer de escrever num pedacinho de papel em quem votou e guardar, só para consultar depois da eleição para lembrar-se em quem votou.

A relutância dos políticos a que os interesses deles sejam prejudicados fará dessa mudança o melhor antídoto contra a pouca representação que já temos no atual sistema eleitoral brasileiro.

Não caia, portanto, nesse engodo. Se for perguntado, diga que não quer. Se nada lhe perguntarem, diga assim mesmo. Essa ainda é uma pequena chance que não lhe roubem o direito, ainda que mínimo, de que seu candidato seja eleito.

Boa sorte!