por Reason Magazine
Kurt Loder tem produzido reportagens sobre a vanguarda cultural dos Estados Unidos desde os anos 1970, primeiro na Circus – uma finada revista de rock – e depois durante um período lendário na Rolling Stone. Durante esse percurso, ele também foi co-autor do livro de memórias de Tina Turner, que serviu de base para o filme Tina [What’s Love Got To Do With It]. Em 1988, Loder foi para a MTV como âncora e agora, entre outras coisas, é crítico de cinema no canal. Suas críticas semanais, disponíveis online em MTV.com, são tão amplas na variedade de filmes quanto incisivas em suas análises.
Vejamos, por exemplo, a crítica de Loder a Sicko, o documentário de Michael Moore sobre o sistema de saúde. “Como um orgulhoso socialista, o diretor aparentemente sente que existem alguns problemas na vida que não podem ser solucionados pela regulação governamental (o mesmo governo que já nos deu o serviço de correios dos Estados Unidos e o Departamento de Veículos Automotores),” escreveu Loder, um veterano militar, em junho. “Qual o problema com os sistemas de saúde governamentais? O filme de Moore não faz essa pergunta, embora acidentalmente nos dê uma resposta. Quando o Estado tenta regular o equilíbrio entre a oferta limitada de assistência médica e a demanda ilimitada, ele é inevitavelmente forçado a racionar o tratamento”.
Nascido em Ocean City, New Jersey, em 1945, Loder é abertamente libertário na política e otimista em relação à cultura. Como parte da conferência “Reason in DC”, realizada em outubro, Nick Gillespie, editor chefe da revista Reason, entrevistou Loder sobre o impacto da tecnologia (um fator de liberação), o crescimento da cultura das celebridades (nocivo), o crescimento do Estado babá (absolutamente nocivo), e o futuro da mídia de massa (triste, o que é bom). A seguir, apresentamos uma transcrição editada, com perguntas da platéia misturadas à discussão. A entrevista completa pode ser vista em reason.tv; os comentários devem ser enviados em inglês para letters@reason.com ou em português para contato@ordemlivre.org.
Reason: As grandes gravadoras reclamam que estão perdendo mercado e faturamento. Os grandes jornais dizem o mesmo. As redes de televisão ainda têm grandes audiências, mas elas já são menores que antes. As grandes emissoras não parecem ter mais o monopólio da audiência. Você acredita que a descentralização da audiência, da cultura, seja boa?
Kurt Loder: Nós estamos em uma situação melhor com as novas tecnologias. A música está proliferando como nunca. Os CDs morreram. Os DVDs morrerão logo. Nós baixaremos tudo pela internet. E eu acho que isso é bom. As gravadoras vão mudar. Elas têm que mudar.
A grande mudança acontecerá em relação aos direitos autorais. Eu acredito que os criadores devam ser pagos por seu trabalho. E é esse o meu lado no debate. Quem grava um disco deve receber por isso. As gravadoras pagam aos artistas por suas músicas, em algum momento. Essa quantia é incrivelmente baixa, principalmente no início. Se você é de uma banda nova, você não vai ganhar nada no início. Talvez em seu terceiro disco você comece a ganhar algum dinheiro. Isso é impressionante.
Nós costumávamos viver em um mundo comandado pela mídia. Você não tinha escolha alguma, a não ser assistir à NBC, à CBS ou à ABC. Se você quisesse grandes reportagens, você lia o The New York Times ou o The Washington Post. Acredito que os blogs e a internet mudaram isso completamente. Eles demoliram o monopólio sobre a informação.
Só para dar um exemplo: O “Baghdad Diarist”, no The New Republic [um soldado que escreveu um artigo descrevendo o suposto mau comportamento das tropas americanas no Iraque] era uma fraude total. Ele foi denunciado por blogueiros militares que apareceram dizendo que esse cara não sabia do que estava falando. Isso não teria acontecido há 20 anos.
Reason: Como jornalista, como você se sente ao saber que o público checa as suas informações e tem acesso direto a você?
Loder: Algumas pessoas sempre vão chamar você de idiota. Algumas pessoas sempre vão dizer que você é ótimo ou que você é um imbecil. Você tem que se acostumar com isso. Mas isso também é bom. É ótimo ouvir diretamente o que as pessoas pensam. É ótimo nos livrarmos dos filtros. Eu acho que estamos vivendo uma grande e promissora era para a mídia. Acredito que esse seja o melhor dos tempos.
Todo mundo consegue ser ouvido agora. Você joga alguma coisa no oceano da internet e ela se espalha para todos os cantos, porque as coisas hoje se espalham mais facilmente. É uma boa época para ser um diretor de filmes, porque a tecnologia que possuímos permite que você faça filmes e os coloque online para que as pessoas possam ver o seu trabalho. Você pode fazer música digitalmente, colocá-la online e as pessoas vão escutar. Essa é a era de ouro da comunicação.
Reason: Um dos grandes bichos-papões do discurso da mídia contemporânea é a aglutinação das empresas de mídia. A própria MTV é parte de um conglomerado gigante. Por que não deveríamos nos preocupar com menos companhias sendo proprietárias de mais emissoras?
Loder: A MTV é parte da Viacom, que controla a Paramount e assim por diante. É um império do mal, não é mesmo? Mas essas gigantes – Time Warner, Viacom – estão enfrentando, nesse momento, o nascer de uma cultura. As coisas estão começando do zero, e elas não estão conseguindo lidar muito bem com isso. Elas estão muito preocupadas, vendo o seu conteúdo sendo gravado e jogado no YouTube. A Viacom tem um processo de bilhões de dólares contra o YouTube.
Mas elas não conseguem lutar contra isso. Elas devem se tornar parte disso. Elas devem comprar uma parte disso.
Reason: Você acha que nós deveríamos nos preocupar com as tentativas, legais ou tecnológicas, de restringir a cultura?
Loder: Não se consegue conter o oceano. Eu não acho que haverá restrições. Não voltaremos a ter três canais de TV ou três jornais de circulação nacional. Isso nunca mais acontecerá. Existe muito jornalismo online de boa qualidade. Eu adoro jornais e revistas, mas acredito que eles já estão de saída. E isso pode não ser ruim.
Reason: Você se preocupa com a fragmentação da cultura? Alguns críticos estão preocupados com algo que perdemos daquele tempo quando todos nós tínhamos que ouvir a mesma coisa ou assistir a mesma coisa.
Loder: Eu acho que uma razão pela qual as coisas hoje estão mais fragmentadas é que não existe um talento que possa unificar o mundo, como os Beatles fizeram. Todo mundo adorava os Beatles, mesmo os mais velhos. Hoje em dia, você pode falar de bandas, mas elas serão sempre comparadas com outras. “Parece nu-metal, mas é death metal com alguma coisa de ska”... Coisas desse tipo.
Mas quando você não tem uma cultura crítica monolítica, que defina como as coisas são, você terá que sair e procurar por música sozinho. As coisas vão permanecer um pouco ramificadas até aparecer algo que as unifique. Nós ainda estamos esperando por esse dia, mas enquanto isso não acontece, ainda haverá muita música boa por aí. Mas você tem que procurar por ela. Ela não lhe será empurrada goela abaixo, embora saibamos que sempre haverá pessoas tentando fazer isso.
Reason: Algumas das tecnologias permitem que nos expressemos com mais liberdade, mas também significam que o Estado pode nos vigiar com mais facilidade e eficiência. Você expôs abertamente a sua oposição ao aumento das câmeras de vigilância em Nova York, onde você mora.
Loder: [O prefeito de Nova York] Michael Bloomberg quer mais e mais câmeras de vigilância. Nós já temos algumas, mas ele está se inspirando em Londres. A Grã-Bretanha está bem à nossa frente em termos de vigilância e do Estado babá. Bloomberg foi à Londres recentemente falar com o seu colega, Ken Livingstone, e ficou entusiasmado com todas aquelas câmeras de vigilância. Há uma em cada esquina, em cada ônibus, em cada estação de metrô. Bloomberg disse que “estamos em desvantagem. Temos que alcançá-los.”
Esse cara é assustador. Eu até entendo o medo do terrorismo, mas as pessoas não parecem entender completamente o que aconteceria caso esse regime de vigilância passasse às mãos de pessoas menos benignas. A gente deve se antecipar a essa situação, mas ninguém pensa nisso. Existem quatro milhões de câmeras de vigilância na Grã-Bretanha e nós estamos indo nessa direção.
Reason: Por que você acha isso assustador?
Loder: Eu não quero ter pessoas me assistindo.
Reason: Essa é uma afirmação curiosa, vinda de um cara da MTV.
Loder: Bem, eu não quero o governo me assistindo. Existem câmeras que multam você, caso você ultrapasse o sinal [amarelo]. Logo logo, eles já serão capazes de dizer se você está fumando ou usando o celular em seu carro. Você começará a ser multado. Isso já está acontecendo na Europa. Será que nós queremos que isso aconteça aqui? Acho que não. Você sempre deve ficar de olho no Estado.
Reason: Como você se sente a respeito das outras questões do nanny state? A proibição do fumo, da gordura trans, enfim... Tudo isso é parte da realidade na Nova York de Bloomberg e, cada vez mais, de outros lugares dos Estados Unidos e do ocidente.
Loder: Bloomberg iniciou recentemente uma repressão aos caminhões de sorvete na cidade. Agora, se você quiser vender sorvete, quando encostar seu caminhão no meio-fio, você não pode acionar sua buzina. O que podemos dizer sobre esse tipo de coisa? É incrível que as pessoas não se revoltem e saiam com seus ancinhos em punho.
E você pode continuar com essa lista, infinitamente. Calabasas, na Califórnia, se tornou uma cidade onde, basicamente, as pessoas não podem fumar. Essa coisa de fumante passivo é ridícula. Eu entendo que as pessoas não gostem de fumaça, mas deveriam existir lugares onde, caso o proprietário não se importe que você fume em seu bar ou restaurante, você pudesse fumar. Qual é o problema disso?
Existem contrastes realmente interessantes. Eu acho que San Francisco acabou de inaugurar a sua primeira sala de aplicações, em que a prefeitura colocará à disposição das pessoas enfermeiras que lhes apliquem heroína. Então, você tem um ambiente limpo, onde você pode se entorpecer, mas ainda tem a proibição ao fumo em bares. Eu realmente não consigo entender.
Reason: Como você se definiria politicamente?
Loder: Eu acredito que as pessoas deveriam ser livres para fazer o que desejam. Eu acho que isso é bem simples. Eu não acredito que alguém tenha fé nos republicanos ou nos democratas. Certa vez, Warren Beatty disse uma coisa muito legal. E é sério. Alguém lhe perguntou se precisávamos de um terceiro partido no país e ele respondeu, “eu acho que nós precisamos de um segundo.” E é verdade.
Reason: De onde vêm suas idéias políticas?
Loder: Eu cresci na costa de Jersey, em uma pequena ilha. O oceano Atlântico estava de um lado, a baía estava do outro. Todo mundo lá caçava, pescava e coletava caranguejos na baía. E um dia meu irmão me disse que alguém tinha vindo do Bureau of Petty Harassment ou algo assim, medir a temperatura da água, e decidiram que ela estava um pouco quente, que certo tipo de bactéria poderia incubar ali e que havia chances de que isso pudesse prejudicar os moluscos. E então, a partir daquele dia, ninguém mais poderia coletar caranguejos da baía. Coisa que todos ignoraram e ninguém morreu. E isso foi antes do governo ficar insistindo nessas coisas. Desde então eu já pensava que tudo aquilo era bem idiota.
Mais tarde, eu recebi um aviso do alistamento militar, o que focou meu pensamento.
E então certo dia eu estava trabalhando em um jornal em Nova Jersey e esse panfleto do Partido Libertário apareceu na minha mesa. No topo dele estava escrito “Amor livre e mercado livre”. E eu pensei, “esse é um território bem interessante.” E é bem ali que me localizo.
Reason: Como a sua ideologia é recebida na MTV?
Loder: Eu não ando por aí pregando para ninguém. Quer dizer, as pessoas sabem o que eu penso. As pessoas na mídia são um pouco esquerdistas. Eu não sei se você já percebeu. É um mundo esquerdista. E eu não sei por quê. Talvez todos tenham freqüentado as mesmas escolas. Como diz John Stossel [da ABC News], isso é a água em que as pessoas nadam, e elas nem se dão conta disso. Mas nem todo mundo na mídia é esquerdista. Aparentemente no The Wall Street Journal também há vários Democratas.
Ainda assim, eles me deixam fazer o que eu quero. Eu tenho que reconhecer isso.
Reason: Como as suas visões se relacionam com seus colegas mais jovens na MTV? Que tendências políticas você vê entre os jovens que assistem a MTV?
Loder: É difícil generalizar qualquer coisa em relação aos jovens porque são todos diferentes. Eu acho que você se surpreenderia ao ver como várias pessoas não são completamente, loucamente, esquerdistas. Quando eu fiz a crítica de Sicko, você se surpreenderia com o número de pessoas na minha companhia que me enviaram emails dizendo, “sabe, você acertou. Eu estou feliz que alguém finalmente disse isso sobre aquele cara”. Você nunca sabe de onde receberá apoio.
Reason: O rock and roll sempre foi visto como um instrumento de protesto. Ainda assim, parece que os artistas fazem cada vez mais parte do establishment em relação às suas visões, e impõem suas visões sobre o público sem remorso algum. Eles foram de “Não confie em ninguém com mais de 30” e “Abaixo o sistema” à defesa da assistência social e à pressão por um programa nacional de saúde. O que você pensa disso?
Loder: Eu não lembro do Elvis Presley nos dizendo o que fazer sobre o aquecimento global. Ninguém deveria esperar que celebridades milionárias salvem o mundo. Eu não sei se você se lembra daquele número da revista Time que trazia o Bono na capa e perguntava: “será que o Bono pode salvar o mundo?” Bem, a resposta é não.
Todas essas pessoas parecem ter uma opinião sobre tudo. Eu acho isso muito chato, mas quem tem 15 anos pode achar isso estimulante. Eu não preciso disso.
Eu acho que deveríamos perceber que o rock and roll é algo que aconteceu e acabou, como o período da música folk. Existe o rock, que é uma coisa completamente diferente, é algo visto como o que aconteceu após os Beatles se tornarem mais conscientes de suas ações. Hoje, quando alguns meninos de 19 anos têm uma banda, eles chegam e assinam um contrato para gravar um disco. Já chegam com advogados e assessores. É difícil ser rebelde assim. As bandas dizem “vamos mudar o mundo” e “abaixo o sistema” enquanto trabalham para a Time Warner.
Mais uma vez, não acredite no que as celebridades dizem. Elas não vão salvar o mundo de ninguém. Muitas vezes, não salvam nem sua própria vida.
Reason: Você mencionou motivos para nos preocuparmos com a liberdade. Mas você é otimista em relação ao futuro, o estilo de vida americano e a cultura americana. Por que, já que algumas coisas parecem estar tão mal?
Loder: Eu acho que nós devemos ser otimistas a respeito do esforço humano. Existirão sempre pessoas criativas. Eu acho que a única preocupação que devemos ter é com as pessoas que desejam nos oprimir, que podem até ser do governo. Apenas o governo pode nos censurar. Apenas o governo pode nos tirar recursos. Eu nunca acreditei verdadeiramente no governo. E não acho que devamos. Eu acredito nas pessoas e no bem que elas podem fazer.