Ordem Livre

 

O mês passado marcou o décimo aniversário da morte do grande economista Julian Simon. Embora ele nunca tenha recebido a aclamação popular ou profissional de outros economistas como Milton Friedman, Paul Samuelson ou F. A. Hayek, as idéias e os trabalhos de Simon estão no mesmo nível daqueles realizados pelos maiores cientistas sociais da história.

A contribuição mais importante de Simon foi consolidar e explicar uma idéia que os grandes economistas que o precederam não analisaram a fundo – a idéia de que os seres humanos em sociedades livres são “o recurso supremo”. Nada – nem o petróleo, nem a terra, o ouro, os microchips, nada – tem tanto valor para o bem-estar material das pessoas quanto o esforço e a criatividade humana.

Na verdade, não existe recurso sem a criatividade humana para identificar uma forma de utilizá-lo e o esforço humano para efetivamente colocá-lo em uso. Reconhecer a verdade desse pensamento faz com que o termo “recursos naturais” pareça uma tolice.

Nenhum recurso é natural.

Vejamos o petróleo. O que faz dele um “recurso”? Com certeza, o petróleo não é naturalmente um recurso. Se fosse, os índios americanos já teriam feito uso dele, como tal, há muito tempo - o que não ocorreu. Eu suspeito que para a população nativa da Pensilvânia, digamos, em 1300, aquela coisa escura, grossa e fedorenta que borbulhava nos poços era uma chateação.

O petróleo não era um recurso até que os seres humanos criativamente descobriram como usá-lo para satisfazer alguns de seus desejos, e outros seres humanos descobriram como extraí-lo do solo de forma rentável.

Ou vejamos a terra. Durante aproximadamente 80 por cento do tempo que o homo sapiens ocupou o planeta, a terra foi apenas um local para se pisar e caçar. A terra não tinha nenhum valor especial como recurso até que, há aproximadamente 10.000 anos, alguém descobriu como cultivar o solo, como plantar e colher. Só então a terra passou a ter o valor e as características que associamos a um recurso.

O mesmo, é claro, aconteceu com o magnésio, o minério de ferro, a bauxita, o feldspato, as árvores e o porto de Nova York – pense em um “recurso natural” e verá que ele só é um recurso porque seres humanos, criativamente, descobriram como utilizá-lo produtivamente.

Uma implicação importante da constatação de que os humanos são “o recurso supremo” é que uma população numerosa e crescente – em sociedades com liberdade suficiente para permitir que os indivíduos experimentem e criem – passa a ser desejável. Se o esforço e a criatividade humana não são apenas recursos, mas recursos supremos, certamente seria estupidez lamentarmos sua grande disponibilidade e estoque crescente.

O foco do rigor analítico e a investigação empírica nessa questão estavam entre os muitos talentos de Julian Simon. Ele, claro, entendeu que os seres humanos – ao contrário do tungstênio e o petróleo – também consomem bens e serviços. Então surgia uma questão: em sociedades livres, a grande quantidade de seres humanos produz mais do que consome ou seu consumo ultrapassa sua produção?

A maioria das pessoas simplesmente supõe que os humanos são consumidores – suposições que explicam a facilidade de se despertar uma histeria em relação ao crescimento populacional. Mas Simon – um pesquisador sempre meticuloso – disse, “vamos verificar os fatos”. E quando observou os fatos, descobriu que o crescimento populacional em sociedades livres produz um aumento líquido na oferta de recursos. Seja por meio da imigração ou por meio de reduções na mortalidade, o crescimento populacional nos países livres é altamente benéfico.

Essa conclusão está em tamanho conflito com a crendice popular que é difícil para muitas pessoas entender sua validade. Paul Ehrlich, da Universidade de Stanford – autor de “The Population Bomb” [A Bomba Populacional], prevê um desastre a partir do crescimento populacional, e vê o otimismo de Simon a respeito do crescimento populacional como algo tão absurdo que aceitou uma aposta feita por Simon em 1980.

A essência da posição de Simon na aposta era que, apesar do crescimento populacional que certamente ocorreria nos anos 1980, a oferta efetiva de recursos naturais aumentaria durante aquela década, porque os seres humanos encontrariam uma forma de descobrir, extrair e utilizar os recursos de forma mais eficiente.

E a forma mais apurada para se medir o aumento da oferta seria encontrarmos o preço desses recursos mais baixo, após a correção da inflação.

Convencido de que o aumento populacional é uma maldição, Ehrlich aceitou a aposta de US$ 1.000. Ele escolheu (Simon deu a Ehrlich o direito de escolher em que recursos apostaria) um grupo que continha cobre, níquel, estanho e tungstênio e apostou com Simon que o preço real desse grupo de recursos seria maior em 1990 do que em 1980.

Em setembro de 1990, os preços foram comparados aos preços desses mesmos recursos em setembro de 1980. Simon venceu de forma convincente. O preço real de cada um dos cinco recursos tinha caído durante aquela década, indicando que sua oferta tinha aumentado, mesmo que a população tivesse crescido em mais de 800 milhões de pessoas durante o mesmo período.

O legado de Julian Simon é profundo. As pessoas livres são produtivas. Nenhum economista causou um impacto maior sobre minha forma de ver o mundo do que Julian Simon. Mesmo após 10 anos, eu ainda sinto saudades da sabedoria e da gentileza que fluíam regularmente daquele homem incrível.

Donald J. Boudreaux é o diretor do departamento de economia da Universidade George Mason.

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